Inclusão digital à paulista

Um bom turista deve sempre se desviar dos passeios pré-fabricados por operadoras de viagem e amigos descolados e seguir a trilha virgem de sua intuição pela senda que vai dar na memória inesquecível. Ou numa delegacia estrangeira. Aí varia. No meu caso, um turista local, a regra também se aplica.

Outro dia, andando pela Avenida Paulista, ali perto da Pamplona, vi uma galeria abarrotada de quiosques pequenos, com mais ou menos 2 metros quadrados. Algo me dizia para entrar. Talvez o intenso fluxo de pessoas com sacolinhas pretas e sorrisos carimbados na fuça que saiam de lá de dentro sem parar.

Resolvi entrar, mas antes olhei pra cima pra ver como se chamava o lugar. Aparentemente aquele estabelecimento aderira de tal forma à Lei da Cidade Limpa que não tinha placa na porta. Ele não se chamava. Os outros é que chamavam.

Dentro, as baias, contendo em média três imigrantes, dois nordestinos e um chinês, também não tinham identificação alguma, exceto por números desenhados, em caneta Pilot e por alguém sem talento nenhum pra desenhar, em placas brancas sobre cada uma delas. Andei dez passos na muvuca — os corredores estreitos e lotados, de um metro e meio de largura, tornando o passeio parecido com uma partida de rugby muito amistosa.

Foi quando uma senhora, de dentro de um quiosque, me oferece um relógio suíço Vacheron Constantin. “Ducentos e qualenta” ela dizia e apontava para o belo design do produto. Duzentos e quarenta não parecia um mau preço, considerando que a Vacheron Costantin é a marca criadora do legendário “Kalista” o relógio mais caro já fabricado (com valor estimado hoje em US$ 10 milhões). Um senhor gordinho do meu lado, vestindo uma camisa pólo vermelha estampada com um jogador de pólo quase em tamanho natural se interessou. Pediu pra ver na mão.

A vendedora não só deu o relógio na mão dele como começou a esfaqueá-lo com uma chave de fenda. O relógio, não o gordinho. “É safíla ó, é safíla ó,” dizia ela enquanto tentava riscar a safira do mostrador sem sucesso. Um modelo daqueles não sai por menos de R$ 40 mil reais no Shopping Iguatemi. O gordinho passou a examinar minuciosamente a peça. “É coisa boa?” indagava ele enquanto eu me afastava.

Nas próximas barraquinhas encontrei inúmeras ofertas de celulares com nomes tipo iPhome, iiPhone, iPhony e iThone. Haviam também câmeras digitais de boa qualidade pelo preço que normalmente se paga nos Estado Unidos. “Esse tem MP3?” Perguntava uma moça ao vendedor segurando um iPhony daqueles. “Esse é melhor, já tem MP3, MP4 e MP5,” respondia o vendedor. Degladiei minha passagem até o fim da galeria e acabei num corredor cheios de ofertas de videogames e produtos conexos.

Me interessei muito quando vi que os jogos do Wii, que custam uns duzentos pilas por aí, por lá custavam apenas R$ 8,00. Parecia um preço justo pra se pagar por um jogo, uma vez que meus filhos ainda não entenderam que apontar o controle na direção da TV é fundamental para jogar e preferem usar como clavas os ultramodernos controladores com sensor de movimento do game. Para eles, quem perde a corrida é o tal do Mario que não sabe dirigir o kart. Certamente aquele presente traria seis ou sete minutos de harmonia ao meu lar. Enquanto eu folheava o fichário gigante de jogos disponíveis pude observar o cartão com o nome da barraca: Inclusão Digital. Não poderia ser melhor.

Postado por Rodrigo Leão

P.S. – Esta foi minha última coluna para a  Revista Época S.Paulo. A partir de agora, para ler estas bobagens só aqui e no FB.

Anúncios

4 Respostas para “Inclusão digital à paulista

  1. .
    .
    .
    “Enquanto eu folheava o fichário gigante de jogos disponíveis pude observar o cartão com o nome da barraca: Inclusão Digital”

    .
    Não poderia ser melhor mesmo.
    .

  2. Desde que acompanho esse blog (uns 02 anos?), cada vez mais tem rareado a publicação de um texto seu. Espero que o fato de não escrever mais para a coluna da revista, não faça você parar totalmente. Tem leitora aqui que acompanha o seu blog, só pra ver se tem um texto novo seu tá?! rs…rs…beijos!

  3. São Paulo tem tantos cantos assim. Eu adoro o centro nos dias de domingo, ótimo para explorar.

  4. Feliz por tê-lo de volta!
    Infelizmente não leio a Época e sinto falta dos seus textos aqui.
    Cadê sua sister e as dicas que ela dava?

    It’s good to have you back. 🙂
    aBS.
    Eder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s