A estatística da falta de amor

Uma recém publicada pesquisa de opinião* afirma que 57% dos paulistanos mudariam de cidade se tivessem oportunidade. E mesmo trabalhando como publicitário, e portanto tendo sido vacinado contra as “verdades” que aparecem em pesquisas de opinião, fiquei um pouco chocado.

Será que de cada 10 pessoas que eu vejo na fila do cinema 6 estão pensando em picar a mula? Essa é uma estatística muito constrangedora. Como um amigo que avisa a você que vai terminar com a namorada antes de avisar a ela. E você se pega jantando com eles, olhando pra ela com pesar e pensando “pode pedir o filé com alho, tonta, ele vai largar de você mesmo…”. Afinal, se toda essa gente está esperando a primeira oportunidade pra zarpar, que tipo de relação estaríamos construindo com a nossa cidade? E pior ainda, que tipo de cidade vai emergir deste tipo de relação?

O meu trabalho consiste basicamente em fazer você achar um sabonete mais legal do que o outro. E pode parecer estranho, mas o segredo não está no sabonete, mas em você. Afinal, sabonetes são objetos inanimados cujo valor só existe quando enxergado por alguém. O sabonete nunca vai valer nada. O que vale é a sua capacidade de enxergar valor nele. O trabalho do publicitário é abrir os seus olhos pra riqueza que já existe em você, riqueza essa que torna você capaz de criar valores como lealdade e fidelidade até mesmo com um sabonete. Ou seja, é da beleza que já existe em você que nasce a beleza das coisas ao seu redor. É da riqueza que você empresta que nasce a riqueza do mundo.

Com uma cidade a coisa não é diferente. É do amor que existe nos seus cidadãos que nascem os motivos para amá-la. Ano passado estive em Berlim, na Alemanha, onde me apaixonei pelas faixas exclusivas para ônibus, taxis e bicicletas! Quem mora em Berlim da valor a ecologia, a simplicidade e a sua própria saúde. E você percebe isso só de olhar pra cidade. A faixa de bicicletas reflete aquelas pessoas que se organizaram pra ter uma faixa de bicicletas. E o Rio de Janeiro então? Uma cidade com uma guerra urbana conflagrada mas que movida pela inquebrantável auto-estima de seus moradores conquista o direito de sediar a próxima Olimpíada. Os cariocas querem enxergar na cidade a beleza que um dia a cidade já teve mas que só restou dentro deles. E aos poucos estão conseguindo.

Agora, o que é que nós vamos conseguir se 57% das pessoas aqui acham que a saída para os problemas da cidade são Congonhas e Guarulhos? Despoluir o Tietê? Pra que, se as praias da Floripa imaginária que nos aguarda estão limpas? Melhorar o transporte público? Ora, o da Curitiba onírica pra onde vamos já funciona. Já sei! Desenvolver um esquema de segurança pública que funcione? Nããã…lá no condomínio em Indaiatuba pra onde a gente vai mudar não tem perigo nenhum. Nos envolver na educação de nossos filhos, cuidando nós mesmos das escolas públicas? Nada disso. Vamos todos pra Orlando vestindo orelhas de Mickey.

Uma vez eu vi uma palestra do Jaime Lerner, o urbanista e prefeito que pôs Curitiba no mapa. Ele começou pedindo pra que alguém da platéia desenhasse um mapa da cidade de São Paulo na lousa. Ninguém se ofereceu. Aí ele perguntou: “Como é que a gente pode amar alguma coisa, ou cuidar de alguma coisa, se a gente nem sabe como ela se parece?” E hoje eu pergunto: “Como é que a gente pode esperar algo de bom de uma cidade quando o que a maioria quer dela é apenas distância?

*Os dados fazem parte da pesquisa Indicadores de Referência de Bem-Estar no Município (Irbem), feita pelo Ibope Inteligência e encomendada pela ONG Movimento Nossa São Paulo. A pesquisa, feita entre os dias 2 e 16 de dezembro, ouviu 1.512 pessoas com mais de 16 anos.

Postado por Rodrigo Leão

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12 Respostas para “A estatística da falta de amor

  1. Beatriz Sauerweing

    Perfeito, Rodrigo! Sou uma apaixonada por São Paulo – sei…já disse isso antes, em meu primeiro comentário aqui…mas apaixonada é assim mesmo, incansável pra falar do que a inspira…Acabei de receber seu texto por e-mail. Vale registrar que não acredito em coincidências. Lá vai: tenho uma loja de sabonetes artesanais de uma marca pouco conhecida em São Paulo, que resume sua essência com o slogan “Bem-estar, harmonia e beleza”. E que tem o seguinte texto, na página inicial do site: A ESSÊNCIA DO BEM-ESTAR ESTÁ EM MUITAS COISAS E PODE SER VIVIDA DE MUITAS MANEIRAS. A SEMENTE DESTA ESSÊNCIA ENCONTRA-SE EM CADA UM DE NÓS. PARA FAZÊ-LA GERMINAR É PRECISO DE CUIDADOS ESPECIAIS COM SOFISTICAÇÃO ARTESANAL PARA ELA BRILHAR DE FORMA NATURAL. UM EXCELENTE COMEÇO PARA SENTIR ESTA SENSAÇÃO FLUIR PELO CORPO ESTÁ EM UM BANHO CHEIO DE TROPICALIDADE COM AS DIVERSAS FRAGRÂNCIAS ENCONTRADAS NOS SABONETES NANA GRASSI. SÃO PRODUTOS QUE CONTÉM EM SUA NATUREZA PRINCÍPIOS ATIVOS NOBRES PARA DIVERSOS TIPOS DE PELE, EXTRAÍDOS DE FORMA SUSTENTADA DE SEUS MEIOS DE ORIGEM. ESSE ZELO DA NANA GRASSI COM A MATÉRIAPRIMA REFLETE-SE EM TODO O PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO E PRODUÇÃO DE CADA SABONETE. A ESSÊNCIA DESTA PRÁTICA ESTÁ ENRAIZADA NA NANA GRASSI E ISSO FAZ TODA DIFERENÇA NA HORA DE PRODUZIR BEM-ESTAR.
    Encarei o desafio do negócio, com o entusiasmo de trazer algo que ainda não existia aqui em São Paulo.
    Agora faço pós na FAAP e preciso entregar meu projeto da monografia até dia 11 de março. Tinha um tema no qual estava trabalhando, mas li hoje sobre o livro “DNA Paulistano” e pensei em mudar tudo…
    Comentei com minha filha, que não entendeu nada. Recebi seu texto.
    O que você acha? Acabo de mudar o rumo da minha monografia! Obrigada!
    Olhar para São Paulo com amor é meu cotidiano. Quem sabe não consigo expressar esse olhar em palavras, em um trabalho acadêmico? Grande desafio! Mas acho que é disso que gosto! Receba meu abraço! Bia.

  2. “Com uma cidade a coisa não é diferente. É do amor que existe nos seus cidadãos que nascem os motivos para amá-la. ”

    Creio que o sentimento de paixão, arrebatamento, é desencadeado por algum motivo especial que se observa no outro. Infelizmente, através dessa pesquisa, percebe-se que SP não disperta o encanto em seus moradores, por isso penso o contrário: a cidade que precisa dar motivos para seu morador ama-la.
    ///////
    E sobre a idéia de “comodites” sobre sabonetes, fale isso pra Natura, q investe pesado em pesquisa e Design em seus produtos.

    • Chicko,
      Acredito que se você parar e pensar melhor não poderá concordar com seu próprio comentário.
      Do ponto de vista filosófico, só existe o observador pois sem ele não existe o observado.
      Os motivos especiais para se arrebatar com o outro só existem porque são percebidos por um sujeito (agente).
      Uma cidade não é um agente, portanto ela não pode fazer nada (agir) para agradar você.
      É a sua capacidade de ser agradado que pode ou não encontrar reflexo numa cidade, numa praia, num deserto, numa donzela, numa prostituta ou num narcótico.
      Quanto à observação da Natura, obviamente você não deve ter muito contato com publicidade ou com a Natura pra falar uma coisa dessas.
      Aliás a Natura me convidou pra falar isso pra eles em dezembro passado. Eu já trabalhei pra Natura várias vezes.
      É por causa desse tipo de comentário (com o tom agressivo no final) que cada vez eu uso mais o Facebook e menos o blog.
      abraço,
      R

  3. Olha, eu tenho uma visão muito triste na verdade de tudo isso. Eu sou paulistana, mas nunca me considerei uma de verdade. E, mais triste ainda, espero nunca me ver assim. Tenho vergonha disso.
    Eu agradeço o fato do meu pai ser goiano, da minha mãe ser “gaúcha” e de eu ter vivido a infância há 20km da cidade – num lugar que existiu e hoje foi engolido, onde se podia brincar na rua, ir a pé na casa da amiga, pegar um sorvete no supermercado e anotar na caderneta. E o que me afasta de SP não é a cidade em si. Claro que se tivesse um pôr do sol lindo e uma praia eu teria mais apego, mas o que afasta não é isso. O que me afasta – e absurdamente o que me aproxima, são as pessoas. As pessoas que se você cumprimenta na rua te olham como se você fosse uma maluca (eu ando fazendo este teste, acho que estou ficando realmente louca!), as pessoas que tentam furar a fila do cinema na sua frente, as pessoas que tiram carteirinhas de estudante com 40 anos de idade e se acham espertinhas, as pessoas que tem preguiça de renovar a carta e pagam para alguém fazer a prova pra elas, as pessoas que te encontram e ao invés de perguntar “como vai?” perguntam “o que você tá fazendo?”, as pessoas que sentam numa mesa de bar e ficam falando sobre os últimos finais de semana que passaram trabalhando, as pessoas que te fecham no trânsito, as pessoas que pagam R$400 numa garrafa de champagne na balada, as pessoas desinteressantes. Lembro uma vez no Chivas Jazz…pra mim foi um grande recado. O carioca é o falador, o louco…o paulistano, o certinho (resumindo de forma boba). Assista um show de jazz aqui: todo mundo conversando, pedindo garrafas de whisky na mesa, respeito algum a quem tá se apresentando. Assista no Rio: um silêncio maravilhoso, um respeito que não existe aqui. Aqui é a cabeça do “eu tô pagando, então posso fazer o que eu quiser”. Semana passada fui sozinha no cinema. Tinha um casal atrás de mim conversando o tempo inteiro – em voz muito alta. Eu me controlei na primeira meia hora, depois não aguentei…Virei e pedi educadamente para falar “um pouco mais baixo”. A mocinha vira e me fala: “Se tá se incomodando, porque não muda de lugar”. Eu não respondi, nem mudei de lugar. Eles também não se calaram.
    Desde que me entendo por gente digo que quero morar fora de SP (eu estou entre os 57%), mas não saio pelo mesmo motivo que não quero ficar: as pessoas. Minha família, meus amigos. Não posso me imaginar longe deles.
    Mas ainda sonho em conseguir levar todo mundo embora daqui.

  4. Rodrigo, você achou meu “tom” agressivo?! Desculpe-me. Não foi minha intenção. Em momento algum ataquei você, xinguei ou ao menos usei uma exclamação. Então, sinceramente, não sei de onde você viu “agressividade” no meu comentário.
    .
    Cara, eu adorei seu blog. Ele fala de publicidade de uma forma incomum, pus até em meu favoritos!! Não vá para o facebook não…rss
    ////
    Comentando sobre seu resposta:

    “Os motivos especiais para se arrebatar com o outro só existem porque são percebidos por um sujeito (agente).
    Uma cidade não é um agente, portanto ela não pode fazer nada (agir) para agradar você.
    É a sua capacidade de ser agradado que pode ou não encontrar reflexo numa cidade, numa praia, num deserto, numa donzela, numa prostituta ou num narcótico.”
    .
    “Minha capacidade de ser agradado”. Penso que essa “capacidade” é sensorial, físico/quimica e não um tanto “filosófica”. Eu não me “permito” ser agrado. Simplesmente as reações fisiológicas são desencadeadas no meu corpo, liberando endorfina e a sensação de deleite, prazer acaba sendo gerada. Eu não escolho, ou me permito, sentir prazer com um narcótico…ele entrando em contato com o meu organismo, acabará me dando prazer, mesmo eu o odiando…o mesmo acontece com a brisa de uma praia, o sexo ou qualquer outra coisa que o valha.
    .
    E, sim, você está corretíssimo, a cidade não é agente. Ela é passiva, está alí por um acidente geográfico, mas o prazer ao corpo que ela proporciona por ser costeira ( clima ameno pela influência do mar, por exemplo ) vai além da nossa capacidade “de ser agradado”. É um fenômeno físico.
    **
    **
    “Quanto à observação da Natura, obviamente você não deve ter muito contato com publicidade ou com a Natura pra falar uma coisa dessas.
    Aliás a Natura me convidou pra falar isso pra eles em dezembro passado. Eu já trabalhei pra Natura várias vezes.”

    Então parabéns pela palestra, pois ela fez efeito. O ultimo anúncio televisivo veiculado pela Natura justamente destaca a diferenciação de seus produtos. Coincidentemente, destaca seus sabonetes, de insumos e design próprios.
    **
    **
    “É por causa desse tipo de comentário (com o tom agressivo no final) que cada vez eu uso mais o Facebook e menos o blog.
    abraço,”

    Mais uma vez me desculpo, naum sei pq, mas me desculpo…minha intenção não foi ser agressivo.

  5. Show de bola, Rodrigão!!!
    Infelizmente algumas pessoas não entendem o intuito dos seus textos.

    Continue por aqui sim, please!
    Grande abraço!

  6. muito bom, como sempre…

    ultimamente tenho cada vez menos paciência com a minha cidade (que não é SP). e penso que a cidade pode ser pior justamente pelo que vc falou, por eu querer abandoná-la.

    por outro lado, às vezes é dificil de crer em uma mudança tão radical. em outras palavras, seriam necessárias umas 3 vidas pra se poder ver faixa de bicicletas, transito viavel, ruas limpas, entre muitas outras coisas por aqui… não sei se meu amor à cidade é forte a esse ponto.

    de todo modo, acho essa estatística bem estranha. sempre tive a impressão de que os paulistas se orgulhavam de sua cidade, até demais.

  7. Eu também me incluo nas estatísticas, nos últimos tempos qualquer destino (capital, praia ou montanha) me é mais sexy do que São Paulo.
    A violência, as 20 e poucas horas semanais no transito, as filas, os abusos, a indiferença do povo com tudo isso e ainda com as crianças jogadas nas ruas do centro… enfim acabam com o orgulho de qualquer um. Uma vez uma pessoa de fora me contou que ela “gostava” de São Paulo porque quando ela estava muito triste, ela podia andar na rua aos prantos que ninguém se incomodaria em saber o motivo.
    A reflexão sobre o futuro que nós reservamos para São Paulo é realmente pertinente e séria, eu não quero ser daqui não, de hoje em diante deixo de ser paulistana para ser uma mera terráquia.

  8. Ninguém/nada é perfeito, até que eu me apaixone.

  9. Rodrigo,

    Gostei muito da sua abordagem.
    Acredito que é a ótica do espectador é que viabilizará a beleza e os outros elementos que poderá lhe agradar.
    Hume afirmava que “a beleza não é uma qualidade das coisas por si mesmas. Ela existe meramente na mente que as contempla, e cada mente percebe uma diferente beleza”.
    Assim sendo, a capacidade de ser agradado através da beleza ou outras características são subjetivas. Deve-se ser um agente explorador e encontrar aquilo que te mais agrada na cidade, e não um mero explorador passivo.

  10. Oi Rodrigo, estou vindo aqui pelo primeira vez, adorei esse post sobre Sao Paulo….confesso que quando troquei o Rio de Janeiro por Sao Paulo me arrependi inicialmente, achei tudo cinza , sem horizonte, transito caotico, tudo meio confuso,….mas depois que comecei a estudar fotografia revi os meus conceitos e o meu olhar…me apaixonei perdidamente por Sao Paulo e pela fotografia, agora vejo esssa cidade com uma nova otica …. essa velocidade frenetica e diversidade visual e cultural me inspiram profundamente para fotografar….agora eu nao imagino outro lugar melhor para viver no Brasil, adoro sair sem rumo pelas ruas de SP para retrata-la….de agente passivo passei a agente ativo e tudo mudou….

  11. “Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso”. Coisa fina, Leão.

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