Zoologia dá samba

Estava eu ali, calmamente observando dois tigres dente-de-sabre atacando uma preguiça gigante de quase quatro metros de altura, típica da megafauna norte-americana, quando me ocorreu um estranho pensamento. Percebi que faltava ali, ao lado daquele espaço onde os esqueletos de feras de outrora posavam como se lutassem pela sobrevivência, uma área dedicada exclusivamente um exemplar da espécie de primatas conhecida como Homo Sapiens. Um exemplar muito raro chamado Paulo Vanzolini.

Afinal, a história do Prof. Vanzolini, sambista e zoólogo (emérito em ambas atividades) se confundia com a do próprio lugar onde eu estava: o Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), que fica na Avenida Nazaré, no Ipiranga, num dos cantos do parque da Independência. O autor de “Ronda”, “Volta Por Cima” e “Praça Clóvis” trabalhou no museu durante 47 anos, 31 destes como diretor vitalício.

Ali, reunidos sob um mesmo teto temos uma grande instalação, aberta ao público que busca ilustrar os visitantes sobre um pouco do que significa a zoologia, o estudo científico da vida animal. De esqueletos de dinossauros e animais da megafauna, até espécimes empalhados ou recriados (como o simpático filhote de mamute que muito agrada a pirralhada), aves, répteis, mamíferos, peixes e outros bichos incríveis estão expostos de modo a satisfazer e aumentar a curiosidade dos leigos sobre o assunto. Um tremendo programa para pais e filhos, o museu abriga o que muito em breve será o mais raro tesouro do planeta: a memória da vida animal.

E longe dos olhos do público, na área do museu dedicada a pesquisa, encontra-se uma das mais completas bibliotecas de zoologia do mundo. Em parte tão destacada graças à doação do Professor Vanzolini de sua biblioteca pessoal – de mais de 25 mil itens – com valor estimado de US$ 300 mil. E como é que um professor de zoologia arruma 300 mil dólares? Biopirataria? Não. Com os direitos autorais de clássicos do samba como “Ronda” e “Volta Por Cima”. Enquanto outros boêmios torraram tudo que ganharam com bebida e mulheres, Paulo Vanzolini queimou sua prata em livros sobre cobras e lagartos.
Eu gosto muito da idéia de uma biblioteca científica comprada com dinheiro de samba. Aliás é por isso que eu defendo um anexo ao museu dedicado ao professor, que recentemente teve lançada uma caixa com sua obra musical completa (aproximadamente 60 sambas de grande qualidade) intitulada “Acerto de Contas”, pelo selo Biscoito Fino, além de um recém lançado documentário sobre sua vida dupla chamado “Um Homem de Moral”.

Neste anexo, os visitante poderiam ver uma instalação recriando o incrível universo paulistano de seus sambas: cheio de dramas, paixões, tristezas e desencontros numa São Paulo lindamente escrita, descrita e musicada. Uma obra lapidada e perfeita num estilo musical que afirma nunca morrer mas que já não é vivo como em outros tempos. Como os fósseis do museu vizinho, seu legado serve pra nos mostrar de onde viemos a e beleza de vidas não mais vividas. Seja no samba ou na ciência.

Hoje com 85 anos, o professor lançou o que declarou ser seu último samba em 1997. A letra diz: “Quando eu for, eu vou sem pena. Pena vai ter quem ficar”. Ele tem razão.

Postado por Rodrigo Leão
Texto originalmente publicdo na Revista Época São Paulo

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