Cinema é circo ou teatro?

Neste fim de ano meu compadre Tintin me emprestou um livro de um autor que sempre acompanhamos, David Mamet, diretor, roteirista e dramaturgo americano, vencedor do Pulitzer e autor de peças clássicas como “Perversão sexual em Chicago”, “Oleanna” e “Glengarry Glen Ross” — adaptada para o cinema como “O sucesso a qualquer preço”. O livro se chama “Bambi vs. Godzilla: On the Nature, Purpose and Practice of the movie Business” (Bambi vs. Godzillla: da Natureza, Propósito e Prática da Indústria do Cinema), e ainda não tem edição em português.

É uma leitura ao mesmo tempo divertidíssima e profunda. Hilariante porque Mamet é um dos melhores escritores vivos e usa todo seu talento para esculhambar a legião de sanguessugas, pendurados e aspones da indústria. E profunda porque além de tudo que eu já disse antes, Mamet tem se provado um grande ensaista — seu livro “Os três usos da faca” é certamente a melhor obra a respeito de como escrever bem dentro da estrutura dramática disponível.

Porque Mamet além de escrever muito bem, sabe exatamente porque está escrevendo muito bem. Ele é um “script doctor”, o roteirista que vem para salvar o roteiro moribundo. Ele escreveu “Os Intocáveis” assim. Foi só trampo. É justamente essa habilidade de escrever bem com apego e interesse emocional (arte) ou com desapego e interesse meramente financeiro (trampo) que o faz tão interessante.

O livro é composto de uma série de ensaios sobre as mais diversas práticas da Hollywood. E um dos tópicos que mais me interessou foi quando ele trata de como a burocracia da indústria cinematográfica tenta trocar o drama pelo pretexto.

Eu explico. Um filme como “Sr. e Sra. Smith” não tem ação dramática. É apenas um pretexto pro Brad Pitt e a Angelina Jolie fazerem 5 cenas de ação e uma de sugestão de sexo. “Se eu fosse você 2” não nos apresenta com uma trajetória dramática mas umas série de esquetes de humor com um pretexto já conhecido: a troca de sexos. Ou então “Um professor Aloprado 2”, em qu eas piadas de peido foram levadas ao limite. E que um filme pornô nada mais é do que o uso de qualquer pretexto para mostrar uma trepada.

Ele argumenta que alguns filmes descendem do teatro (quanto são sobre a trajetória de um personagem numa jornada transformadora) e outros do circo (quando são baseados em gags, tiroteios, trepadas, esquetes). O truque circense (ou rotina, um bom nome pois é a exaustiva repetição que permite aquela habilidade). De um lado você tem Steven Spielberg fazendo você ter medo de tubarão mostrando uma cena de água sem nada. Do outro James Cameron fazendo uma briga de socos na asa de um jato Sea Harrier em pleno vôo. O cinema dramático usa a sequência infletida (mostrando uam mulher nadando do ponto de vista de um suposto tubarão junto com um música sinistra. O cinema circense tem que criar novos efeitos cinematográficos que precisam ser vistos efetivamente — como pornografia — para serem apreciados.

Ambos são passatempos criados por artistas para ganhar uma grana. A diferença, segundo ele é que enquanto no drama a transformação do personagem deixa o público com a mente cheia, no circo o público sai distraído e cansado pela emoção física de ver suas expectativas de ver um truque realizado. E os motivos que levam a burocracia financeira de Hollywood a bancar somente o filme circense são o medo, a covardia e a incompetência. Afinal, se você juntar uma galera numa salinha pra fazer uma pesquisa qualitativa você não aprova “Romeu e Julieta” de Shakespeare. O roteiro volta com um post-it onde lê-se: casal não deve morrer no final. Favor reescrever.
Sem dúvida algo pra se pensar antes de escolher seu próximo cineminha.

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Uma resposta para “Cinema é circo ou teatro?

  1. Sensacional, Rodrigão!!!
    Agora tenho mais argumentos pra tentar fazer com que minha esposa goste mais de “filmes de pensar”, como ela diz.

    Mas no final é bem isso, né?! Acho que a maioria das pessoas estão interessados só em pão e circo. E creio que a tendência é cada vez gostarem mais de circo e pão. Pois se só dão pão pro macaco, o macaco comi só pão!!!

    Abraço, meu caro!!!

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