Um grafite que vale por um diploma

Quem é leitor do Blog vai achar este post um pouco redundante, mas esta é a coluna do Metro desta semana, que este bolg se propõe a documentar. Então guenta.

Imagine uma dança das cadeiras onde 2074 bundas disputam 50 cadeiras. Assim será o vestibular para Propaganda na USP este ano — a mais disputada vaga da mais disputada universidade do país. Mas para se transformar em mestres da comunicação do século 21, talvez essa molecada não devesse estar olhando para dentro da sala de aula e sim pras paredes do lado de fora.

Ali, com spray, stencil, ações de guerrilha, instalações e uso inteligente da internet um jovem inglês conhecido apenas pelo codinome Banksy vem se tornando não só um dos mais importantes artistas vivos, como talvez um dos mais interessantes publicitários do mundo. O trabalho de Bansky é simples, audaz, direto, bem-humorado, relevante e encantador. Tem síntese e informação. Só que infelizmente para indústria da publicidade, Banksy não vende idéias com fins comerciais. Só usa seu talento para promover suas próprias idéias anti-preconceito, anti-guerra, anti-corporativas e principalmente anti-arte-como-nós-a-conhecemos.

Banksy há tempos aplica em sua obra aquilo que a propaganda mundial ainda sofre pra entender: que a mensagem tem de ser pensada a partir do contexto. E que a arte ou a propaganda precisam interferir neste contexto para ampliar seus significados, não para atrapalhá-lo. A arte de Banksy se apropria e revoluciona o espaço que ocupa. Como os quadros falsos que ele pendura em museus importantes e levam meses até serem detectados ou o grafite de uma menininha voando com um balão que só é tão poderoso porque está pintado no muro criado por Israel para cercar a Palestina. Ou então sua última estrepolia: “The Village Pet Store and Charcoal Grill” (Pet Shop e Churrascaria da Vila) uma pet shop toda feita com robôs animado: cachorros-quentes brincando, nuggets de galinha ciscando, palitinhos de peixe frito nadando em aquários, coelhos se maquiando, macacos que assistindo TV —talvez a mais mordaz e simples crítica ao uso de animais pela indústria já feita.

Em 1917, Marcel Duchamp demonstrou, ao colocar um mictório numa galeria de arte e intitulá-lo “Fonte”, que aquilo que num banheiro serve pra fazer xixi, numa galeria de arte pode servir pra fazer pensar. Mas Banksy acredita que a arte moderna parou de nos fazer pensar faz tempo: “Nunca na história humana tanto foi gasto por tanta gente para dizer tão pouco.” Esse é o mesmo risco que corre a publicidade do século 21: ou começa a tornar a experiência das marcas na vida dos consumidores mais rica e contextualizada ou vai acabar no banheiro.

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Uma resposta para “Um grafite que vale por um diploma

  1. Legal da sua parte ter citado Duchamp, um mestre da arte de não fazer arte.

    Um cara que tem seu trabalho apreciado por exatamente criticar o trabalho dos outros.

    Tive o prazer de visitar a recente exposição de Duchamp no MAM, e de quebra conhecer o trabalho de brasileiros inspirados em sua não-arte.

    Maravilhos, tanto Duchamp quanto seus seguidores.

    Aqui vai a dica:

    http://tfmoralles.blogspot.com/2008/08/duchampado_02.html

    Abraços.

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