Amigos,
segue meu primero texto pra revista Época São Paulo, já nas bancas, junto com a Época nacional.
O ônibus passou rosnando e a ventania jogou a bicicleta na direção do meio-fio da Av. Diógenes Ribeiro de Lima. Atrás de mim, gritinhos agudos estalaram no ar. Com algum esforço, retomei o controle da bicicleta, que tinha a dirigibilidade prejudicada pelos 17 quilos empoleirados na cadeirinha atrás de mim.
“Papai! Papai! O ombizu passou pertinho-pertinho. Papai! Papai! Eu não falo ônibus porque eu só sei falar ombizu.Ó: Ombizu! Olha o homem no Por-do-sol? Porque tem esse cheiro?” “Eles estão cortando a grama da Praça do Por do Sol, filhão.”
Ali estava eu, às 7h55 da manhã, pedalando ladeira acima pra ver se conseguia melhorar as curvas do meu gráfico de qualidade de vida. São Paulo, como se sabe, foi criada neste exato ponto geográfico pelo Padre Anchieta para testar a perseverança cristã de seus habitantes. Ladeiras que descem até algum lugar útil não parecem existir, ao contrário de Paris, por onde, eu li recentemente, intelectuais pedalam em modernas bicicletas públicas chamadas “Vélib”, levando na garupa baguettes e excelentes gráficos de qualidade de vida.
A escola do meu filho fica a apenas 2,1 km da minha casa. Contando as ladeiras, semáforos, buracos, fechadas e gargalhadas levamos uns 15 minutos de casa até lá. A meia hora de exercício da ida e volta fazem bem pro papai aqui. Os 15 minutos de contato com a cidade fazem muito bem pro filhote, o verdadeiro motivo de estarmos ali naquele momento.
Levá-lo de bicicleta pra escola foi o jeito que eu encontrei pra ensiná-lo a olhar pra cidade não como um obstáculo entre ele e seu destino; não como um lugar ameaçador por onde temos de passar até chegar a segurança de um lugar conhecido; não como o espaço que separa o clube do shopping ; mas um lugar privilegiado, cheio de maravilhas e surpresas, cheiros, cores e temperaturas. O palco da sua vida.
Foi olhando pra cara de uma garotinha no banco de trás de um carro blindado parado do meu lado no trânsito, parecendo um sapo boiando numa jarra de formol, que eu percebi o quanto a busca por segurança nessa cidade havia passado do ponto. Porque o principal problema enfrentado por quem tenta viver com a sensação de segurança em São Paulo é conseguir.
Afinal, pra ter essa a sensação é necessário um aparato enorme: muros, cercas elétricas, câmeras, guardas armados, cães adestrados, centrais de monitoramento, carros blindados e por aí vai. Esse aparato não nos torna seguros, apenas nos separa da cidade, travestindo-a de ameaça. Segurança é apenas uma sensação, como provou tão bem aquele pobre Sr. Safra, morto num incêndio em seu quarto-do-pânico blindado dentro de sua mansão em Monte Carlo.
Na bicicleta, podemos ser assaltados ou mesmo atropelados. Mas podemos sentir o cheiro da grama cortada e do forno da padaria, sentir no rosto o corte frio do inverno e a mão quente do verão, ouvir as melodias assobiadas por desconhecidos, reparar nas roupas dos velhinhos, dar passagem pras crianças, criar as memórias que serão as cores do quadro das nossas vidas.
É por isso que não vale a pena blindar a sua bicicleta.
Postado por Rodrigo Leão