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O dia em que Mano Brown entendeu Jorge Ben.

Outubro 9, 2008 · 4 Comentários

Uma das maiores vergonhas que eu passei na vida foi no dia em que eu fui apresentado ao Jorge Ben. Foi na festa de 10 anos da W/Brasil, onde eu trabalhava na época, na frente de 10 mil pessoas, no meio do salão do ginásio do Corinthians. Eu estava passando e o Washington me pegou pelo braço e subitamente lá estava eu, de frente para meu grande ídolo Jorge Ben.

Câmera lenta. Washington olha pra mim, olha pro Jorge e diz, numa língua que se desenrolava vagarosa e distorcida de sua boca e que me pareceu claramente ser o baleiês do “Procurando Nemo”: “Jorge, esse aqui é o Rodrigo, ele também toca guitarra.” 7 séculos de silêncio se passaram naquele breve instante, enquanto o gênio Babulina tentava conjuminar uma resposta adequada. Deveria ele promover uma jam imediatamente comigo? Perguntar se eu preferia as Fenders ou as Gibsons? Talvez revelar o segredo de sua afinação diferente? Ou quem sabe me contar sobre os ritmos secretos que os santos que incorpora levam até a sua mágica mão direita? E por falar em mão direita, a minha ainda estava apertando a dele e resolvi soltar antes que se caracterizasse assédio sexual. Dei uma risada maluca — como aquelas que o Rei Roberto Carlos dá quando perguntam a ele se ele fumou maconha na época da Jovem Guarda; balbuciei um “Muito prazer” e segui andando atordoado como um pintor de paredes apresentado a Picasso com um “Ele também pinta.”

Jorge Ben é um dos poucos seres vivos que criou um estilo novo na música popular mundial. Como o mambo de Pérez Prado, o choro de Pixinguinha, o reggae de Bob Marley, a bossa de João Gilberto ou o rap da Sugarhill Gang e Africa Bambaata. Sua música tem uma identidade que ferve em ritmo, exuberância e falta de sentido — e que por isso  mesmo se confunde com a própria a identidade do Brasil.

Na minha opinião, o descendente direto de Jorge Ben na música brasileira  é o incomparável Mano Brown dos Racionais MCs. Um rei negro vindo da periferia que construiu seu império sem pedir nada pra ninguém nem tomar nada de ninguém, e que por isso faz sua arte sem pedir a benção da Globo, da Abril, do Tutinha da Jovem Pan nem da puta que o pariu. Um artista de verdade num mundo onde artistas são cada vez mais um misto de assessor de imprensa, figurinista e gerente de marketing. Um homem que amedronta os homens e derrete as mulheres. Incoerente, inteligente e insubstituível.

Só que até pouco tempo Mano Brown tinha um sério problema. Ao contrário do Jorge Ben, de quem ele é também um devoto fã, Brown sempre cantou a dificuldade, a revolta, a tristeza e o terror da sua “Vida Loka”. Sempre com uma intensidade e uma ambiguidade que suas centenas de imitadores simplesmente não conseguem nem entender corretamente. Por mais que todas (ou quase todas) suas músicas sejam pequenas obras primas, não dava pra tocar nenhuma música  dele nos dias mais importantes das nossas vidas: o dia em que nascem nossos filhos, o dia do nosso aniversário ou o dia do nosso casamento. No fio que saia da ponta da Bic do Brown não tinha maravilha.

Isso até aparecer na Internet recentemenet, sem explicação,  “Mulher Elétrica”, sua nova criação e que sem dúvida será a música do verão 2009. A versão que está ativando a Internet claramente não é a produção final (é uma mixagem ruím — o som está abafado, a voz baixa) mas já dá pra perceber todo o potencial da música. Uma obra-prima do pop: dançante, contagiante e feliz. “Mulher Elétrica” segue a tradição de “O Homem da Gravata Florida” ou “Menina Mulher da Pele Preta” de Ben. O elogio do personagem que todos conhecem mas que seguia ainda não denominado: a mulher elétrica que acende as noites paulistanas. Como “Garota Nacional” corta o elogio rasgado com a ambiguidade entre o desejo e o rancor. Abre espaço assim para que o maior artista jovem da música brasileira deixe um legado ainda maior. Finalmente entendendo que a alegria do Ben vem do mesmo lugar que sua própria fúria. Um lugar chamado coração.

Para os que acompanham o blog, na TGC (Teoria Geral da Cerveja), Ben, Brown e breja estão lá no alto da minha lista. Espero me sair melhor se houver uma segunda chance.

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Quem vai desligar o respirador da música pop?

Agosto 6, 2008 · 4 Comentários

Muita gente acha equivocadamente que Vinícius de Moraes gostava de poesia. Vinícius gostava é de mulher. Poesia era uma coisa que ele usava pra conquistar as mulheres. Quando veio o tempo em que a música popular era uma melhor ferramenta de conquista, ele rapidamente virou músico popular. Se ele gostasse mesmo de poesia teria passado a vida na biblioteca, em vez de enchendo a lata com as gatinhas.

Houve um tempo em que um sujeito se sentava na mesa de um bar e falava com cara de angustiado: “Eu sou poeta.” e imediatamente a mulherada se imaginava sendo assunto principal de peças literárias de exaltação erótica e moral — e conseqüentemente com tesão. Hoje, o cidadão diz “Eu sou poeta!” e a mocinha responde “Parente da Patrícia? Aquela da Globo? Eu tenho uma amiga que é prima do Wagner Montes. Cê é o que dela?”

O declínio de uma forma de arte tem direta correlação com a sua capacidade (da forma de arte) de ajudar o artista a se dar bem sexualmente. Não importando o que isso queira dizer, visto que artistas são notoriamente inventivos nesse quesito também. Ninguém disputa a importância artística da música clássica mas vá você tentar se dar bem com essa letra por aí. Até você conseguir explicar a importância do segundo contra-fagote pra moça ela já foi dançar com um amigo surfista.

Eu, como a tartaruga do Kung-Fu Panda, sei que o presente tem esse nome porque é uma dádiva. Por isso, contemplando o fim da importância da música pop como forma de arte, não sinto dó. Antes dela faleceram a poesia, as artes plásticas, a ópera e tantas outras formas que uma pessoa tem de tentar dormir bem acompanhado. É óbvio que como no caso de todas essas outras formas de expressão sempre haverá um nicho de pessoas interessadas que vão manter a música pop viva. Até o funk carioca tem fãs e defensores.

Podemos falar abertamente então: não é você que está ficando velho. As bandas de hoje em dia realmente não importam. O que  fazia a música pop ser tão importante pra nós era o gargalo de distribuição. Quando só havia um Sex Pistols que não sabia tocar mas tinha muita “atitude” a gente achava legal pois pensava: “Pô, eu bem que podia ser um retardado desses aí!”. Para ser um milionário com um estilo de vida dionísico só eram precisos 3 acordes e muita atitude. Agora que todos os Sex Pistols do mundo podem mostrar seu visual chocante e seu som horrível no myspace, nenhum deles importa. A Inflação de artistas desvalorizou essa arte até a morte por irrelevância. Resta saber o que o gênio Vinícius faria hoje pra ir embora do bar abraçando algo mais curvilíneo do que o Tom Jobim?

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