Semana passada eu falei aqui do recém lançado livro “Fora de Série” (Ed. Sextante), do canadense Malcom Gladwell e achei que já tinha falado o bastante. Hoje, quando eu sentei aqui pra escrever a coluna, meu propósito era pensar e depois escrever sobre uma certa crise de talentos musicais da qual vários amigos meus vem me falando. Não sei se concordo com eles, ou se somos apenas trintões cansados do mesmo pop sendo regurgitado tantas vezes. O fato é que ao começar a pensar sobre a Mallu Magalhães, o tal “fenômeno” do Myspace.com, me vi de volta ao tema central do livro: as ditas pessoas “especiais” são tão especiais assim? Ou existem muitos elementos exteriores que determinam seu sucesso?
Outro dia li no jornal que o cantor D’ Black, tinha mais de 2 milhões de visitas aos seus clipes no YouTube.com, como se isso fosse uma credencial de qualidade. Ora, e quem disse que esses acessos foram legítimos? Quem checou? Quem está contando? Qualquer hacker de meia tigela faz um robozinho (programa) pra ficar acessando sem parar um site e aumentar estratosféricamente o número de visitas. Ou no caso da Mallu Magalhães, cujo nome vem sempre agregado ao site de relacionamentos Myspace.com. Pense por um instante: você tem um site de relacionamentos cujo foco principal de diferenciação é a presença de bandas (que são um notório agregador de pessoas). É isso que o torna diferente do Orkut.com, por exemplo. O que você faz para que todas as bandas de um país se inscrevam imediatamente no seu site? Dá uma forcinha pra criação de um “fenômeno” — o milagre da pessoa comum alçada de imediato ao estrelato de forma mágica e inesperada. Ao saber da história das Mallu, todas as bandas do país se inscreveram correndo, e logo vieram junto seus amigos. Quem é que checou se os milhões de acessos que ela teve não foram motivados por milhões de convites gerados pelo site? Se eles fizeram isso, também não há problema. Isso não é crime. É marketing.
Reza a lenda que quando Jimmy Hendrix lançou seu primeiro LP na Inglaterra, seu empresário Chas Chandler pagou pessoas nas ruas de Londres para entrarem e comprarem todos seus LPs nas lojas no dia do lançamento. Os lojista entusiasmados com as vendas relâmpago fizeram pedidos de extravagantes quantidades de reposição. A notícia se replicou no jornal e foi o começo de tudo. Acho que o problema do novo pop é que nem ele nem seus truques são novos. A Internet ainda não nos salvou do nosso desejo de acreditar na história da Carochina.
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Muita gente acha equivocadamente que Vinícius de Moraes gostava de poesia. Vinícius gostava é de mulher. Poesia era uma coisa que ele usava pra conquistar as mulheres. Quando veio o tempo em que a música popular era uma melhor ferramenta de conquista, ele rapidamente virou músico popular. Se ele gostasse mesmo de poesia teria passado a vida na biblioteca, em vez de enchendo a lata com as gatinhas.
Houve um tempo em que um sujeito se sentava na mesa de um bar e falava com cara de angustiado: “Eu sou poeta.” e imediatamente a mulherada se imaginava sendo assunto principal de peças literárias de exaltação erótica e moral — e conseqüentemente com tesão. Hoje, o cidadão diz “Eu sou poeta!” e a mocinha responde “Parente da Patrícia? Aquela da Globo? Eu tenho uma amiga que é prima do Wagner Montes. Cê é o que dela?”
O declínio de uma forma de arte tem direta correlação com a sua capacidade (da forma de arte) de ajudar o artista a se dar bem sexualmente. Não importando o que isso queira dizer, visto que artistas são notoriamente inventivos nesse quesito também. Ninguém disputa a importância artística da música clássica mas vá você tentar se dar bem com essa letra por aí. Até você conseguir explicar a importância do segundo contra-fagote pra moça ela já foi dançar com um amigo surfista.
Eu, como a tartaruga do Kung-Fu Panda, sei que o presente tem esse nome porque é uma dádiva. Por isso, contemplando o fim da importância da música pop como forma de arte, não sinto dó. Antes dela faleceram a poesia, as artes plásticas, a ópera e tantas outras formas que uma pessoa tem de tentar dormir bem acompanhado. É óbvio que como no caso de todas essas outras formas de expressão sempre haverá um nicho de pessoas interessadas que vão manter a música pop viva. Até o funk carioca tem fãs e defensores.
Podemos falar abertamente então: não é você que está ficando velho. As bandas de hoje em dia realmente não importam. O que fazia a música pop ser tão importante pra nós era o gargalo de distribuição. Quando só havia um Sex Pistols que não sabia tocar mas tinha muita “atitude” a gente achava legal pois pensava: “Pô, eu bem que podia ser um retardado desses aí!”. Para ser um milionário com um estilo de vida dionísico só eram precisos 3 acordes e muita atitude. Agora que todos os Sex Pistols do mundo podem mostrar seu visual chocante e seu som horrível no myspace, nenhum deles importa. A Inflação de artistas desvalorizou essa arte até a morte por irrelevância. Resta saber o que o gênio Vinícius faria hoje pra ir embora do bar abraçando algo mais curvilíneo do que o Tom Jobim?
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