A senhora, que parecia ter escapado de um quadro do Botero, com a silhueta impiedosamente delineada pela calça fuseau e a camiseta três números menor do que o respeitável, parou por alguns segundos diante do quadro intitulado “Nu sentado contra fundo vermelho”, pintado em 1925 pelo mestre Henri Matisse. Sacou sua câmera digital cor-de-rosa de origem sino-duvidosa e sapecou uma foto. Conferiu a imagem no pequeno visor de LCD e seguiu rolando pela exposição “Matisse Hoje”, na Pinacoteca do Estado, capturando com apenas dois megapixels e em poucos minutos a obra visual que o gênio francês levara uma vida inteira pra conceber e produzir.
Fiquei curioso. Porque ela não parava para olhar os quadros? Não custava nada. Sério. Era sábado, dia em que a entrada na Pinacoteca é franca. Alguns daqueles quadros demoraram um século para chegar àquelas paredes. Custava parar um pouquinho pra apreciá-los? Mesmo sendo um tipo de retrospectiva bem pequena ou uma “Microspectiva” como dizia um texto na entrada, “Matisse Hoje” não deixa de ser a primeira mostra significativa do pintor no Brasil. Mas lá ia ela. Como Van Damme. Nada poderia detê-la. Clique. Clique. Clique.
Logo percebi que não era só ela. Pelo menos um terço dos visitantes não observavam os quadros em si. Estavam vendo a exposição através das telinhas de seus Blackberrys, Nokias e Motorolas. Alguns postando diretamente para suas páginas no Facebook os quadros que não estavam nem tentando apreciar. “Ele deve ter morrido agora” chutava uma senhora ruiva, errando por apenas meio século, enquanto sua amiga capturava com num LG vintage uma colagem.
O crítico de arte da revista Time, Robert Hughes, escreveu certa vez que uma pessoa comum já não era mais capaz de enxergar a beleza singela de uma natureza-morta depois da bizarra supervalorização das obras dos grandes mestres ocorrida nos anos 80. Tudo que o cidadão via a sua frente agora eram milhões e milhões de dólares. O valor multimilionário das obras de arte se tornando um impedimento à sua mera apreciação.
O que acontecia na minha frente era uma coisa parecida. O advento da câmera digital plenamente acessível a toda população do planeta está banalizando o poder das imagens. Do mesmo jeito que o excesso de dinheiro na praça desvaloriza uma moeda, os trilhões de imagens geradas a cada dia no planeta desvalorizam cada unidade singular. Ao ponto de que não conseguimos olhar pra uma imagem e sentir mais tantas emoções assim. Os visitantes fotografam, não pra contemplar as obras mais tarde, mas pra provar que estiveram lá naquele importante momento. A forma de arte morre junto com seus espectadores qualificados.
Quando os Fauvistas primeiro mostraram seus quadros no Salon D’Automne em 1905, algumas das visitantes chegavam a desmaiar. Para gerar este tipo de reação, uma imagem precisa ser observada com intensa concentração e respeito. Cento e quatro anos depois isso já não parece mais possível. Bye bye, Matisse e Picasso. Hello, Flickr e Picasa.
Texto originalmente publicado na revista Época São PAulo.
Postado por Rodrigo Leão



