Um dos principais motivos que eu tenho pra ser honesto é não poder contar com a cela especial em caso de prisão. Como eu larguei a universidade depois de 3 anos e meio, se cometer um crime, vou pro xilindró basicão. Infelizmente ainda não existe a cela semi-especial, pra quem tem “curso superior incompleto” como eu: uma cela intermediária entre a básica e a especial — talvez com frigobar, mas sem bebidas, cama “queen size” e TV que passa o pacote básico do cabo, sem HBO.
A cela especial é como quarto de motel: um lugar especialmente criado para promover a sacanagem. E todo mundo sabe que no sistema judiciário brasileiro tem mais sacanagem que a série “Buttman”, mas a cela especial para portadores do diploma universitário passa dos limites da sacanagem consensual (como os impostos, que a gente paga torcendo pra que o nosso dinheiro vá parar numa escola) e entra no território da violência sexual. A figura jurídica da cela especial é uma passada de mão na nossa bunda cidadã.
Afinal, quem tem curso superior completo teve muito mais chance de ser honesto na vida (pois é mais qualificado para arrumar um emprego) e teve muito mais noção de que estava cometendo um crime. Então esses caras deveriam ter uma cela pior, não melhor.
Acontece que as celas comuns das nossas cadeias também são especiais: foram especialmente criadas a quatro mãos por Stephen King e Satanás para reproduzir o inferno aqui na terra. Portanto, nem daria pra criar uma cela pior pros acadêmicos da vacilação. A verdade é que um sistema judiciário que admite, promove e implementa idéias como essa poderia ser chamado de teatrinho burlesco caso isso não ofendesse tanto os teatrinhos burlescos.
Mas o sistema judiciário é um reflexo da cultura da exclusão que reina no Brasil, com os ricos querendo excluir os pobres até da sua cela na cadeia. Os pobres já estão excluídos das melhores escolas, dos melhores hospitais, dos melhores shoppings, dos melhores bairros e das melhores praias. Pra que se misturar no xis (cadeia na gíria da cadeia)?
Os novo lançamentos imobiliários em bairros bacanas aqui em São Paulo são a cara dessa cultura: têm parque, praça, lan-house, academia, escola, espaço gourmet, lavanderia e playground integrados. Ou seja: são uma espécie de cela presidencial deluxe de onde você nunca precisa sair. Pra excluir os pobres totalmente do seu convívio, os ricos acabam sendo excluídos da própria vida na cidade.
Entradas do Abril 2008
Vai querer a cela especial, a premium, a maxi-plus ou a presidencial?
Abril 24, 2008 · 7 Comentários
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O batizado da Manu
Abril 16, 2008 · 4 Comentários
Querida Manuela,
Como você ainda é apenas uma linda bebêzinha de 3 meses, você ainda não sabe de algumas coisas comprometedoras a respeito do seu futuro padrinho. É melhor saber agora.
Bom, Manu, a pesar de não ser um dos Titãs, eu também não gosto de padre, não gosto de madre e não gosto de frei. Quer dizer, das pessoas que são padres e madres e freis eu gosto muito. Não gosto é dos cargos que eles ocupam. Na verdade, desgosto de forma igualitária e democrática de todos os intermediários divinos de todas as denominações religiosas. Para mim, Manu, o poder divino (qualquer que seja ele) não é a Volkswagen pra precisar de uma rede de concessionárias autorizadas.
Por conta disso, você pode imaginar, nunca fui o primeiro na lista de convidados para nenhum batizado. Muito menos para a lista de possíveis padrinhos de ninguém. Afinal, o papel do padrinho é zelar pela educação da criança dentro dos valores da Santa Igreja.
Eis que esta semana os seus pais, a Ana Paula e Tintin, convidaram a Giovana e eu pra sermos os seus padrinhos. Manu, você não sabe como a gente ficou feliz! É nessas horas que eu tenho certeza que a vida é melhor pra quem faz o que acredita (aliás, esse é um dos conselhos que eu vou te dar). Não por acaso, o seu pai também não é filiado a nenhuma concessionária. Portanto, terei o melhor de dois mundos: vou poder ser o seu padrinho sem ter que fazer o terrível “Cursinho de padrinho”.
Mas Manu, não pense que você vai ser menos batizada que os seus amiguinhos por falta de padre. Não, senhora. Vamos batizar a senhora aqui mesmo no blog:
“Eu, Rodrigo Leão, juro aqui na frente de todo mundo que serei um padrinho merecedor da honra de amar e apoiar você, Manuela Marques Trotta, em sua longa e próspera jornada pela vida. A vida, Manu, é um milagre. Saber levá-la com simplicidade, honestidade, dignidade, amor e compaixão é um milagre dentro de um milagre. E nessa jornada dificílima, só temos uns aos outros e nada mais. Para todo perigo haverá uma sorte; para todo percalço, uma chance; para toda sombra sempre haverá uma luz; para todo problema, uma solução; a vida é o oposto do nada, e quem tem a vida, já tem tudo. Caberá a você empurrar com suas próprias mãos a injustiça, a indiferença, a ignorância e o desamor pra longe da sua vida. E sempre que sentir que lhe falta força para enfrentar sozinha este desafio, estique a mão. A minha e a da sua madrinha, vão estar lá pra segurar na sua.”
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Johnny Lee hackeia o controle remoto do Nintendo Wii e cria muitas possibilidades.
Abril 11, 2008 · Deixe um comentário
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Menina Isabella e a pornografia jornalística.
Abril 9, 2008 · 3 Comentários
Menina Isabella e a pornografia jornalística.
O jornalismo deveria ter por missão informar o público leitor a respeito de fatos relevantes para sua vida e seus interesses. Mas o jornalismo não faz isso. O jornalismo vive de levar até você, numa embalagem gráfica agradável e sintética e por um preço adequado, informações interessantes.
Se você se interessa por notícias cotidianas, pode escolher entre uma variedade de jornais, sites e revistas semanais. Se os seus interesses são mais específicos, tem inúmeras revistas a sua disposição, seja para tunar uma moto chopper ou fazer crochê de um jeito melhor.
Para viabilizar o grande volume de distribuição e os custos de suas operação, toda empresa jornalística precisa vender espaço comercial. Anunciantes pagam para levar mensagens até você na hora que você está lá, concentradão nos assuntos que lhe interessam.
Acontece que a maneira que o nosso cérebro reconhece e identifica informação ainda tem muito do nossos queridos ancestrais símios. Qualquer notícia que contenha sexo, violência, riqueza profusa, cataclismas ou dicas de sobrevivência sempre nos interessam mais. É automático e pré-racional.
Para vender seu espaço publicitário por um preço maior, as empresas jornalísticas precisam ter mais leitores. E para ter mais leitores, precisam equilibrar a notícia popular (que dá audiência) com a notícia relevante (que é a que faz diferença na sua vida). Imprensa Marrom é o nome que se dá ao jornalismo com foco na popularidade.
Foi o que aconteceu no terrível e trágico caso da “Menina Isabella”, morta recentemente em circunstâncias misteriosas. Até morrer, seu nome era só “Isabella”, mas a imprensa logo passou a chamá-la de “Menina Isabella” pra relembrar o público da outra tragédia, a do “Menino João Hélio”. A tragédia de Isabella contêm elementos populares: família de classe média, uma vítima inocente e um desenlace misterioso. As emissoras de TV armaram um cirquinho no estilo C.S.I. onde repórteres desinteressados, mal intencionados e muito bem remunerados levantaram vídeos da menina no supermercado horas antes de morrer e até uma entrevista como porteiro do prédio.
Os jornalistas e editores não estão nem aí pra Isabella. No máximo, torcem por desenlaces que alonguem o mistério mantendo sua audiência. O público também não está nem aí pra Isabella: curtindo o prazer secreto de não estar na pele dela, do pai ou da madrasta. E a mídia explora o corpo da menina de forma obscena e com fins lucrativos. Isso se chama pornografia. E é uma das paixões menos belas da natureza humana.
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E se o Michael Jackson fosse indiano?
Abril 7, 2008 · 1 Comentário
Muita gente tinha essa dúvida: o que poderia ser pior do que ser o Michael Jackson. Tá aí a resposta. Ser o Michael Jackson indiano.
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Barack Obama: ‘A More Perfect Union’
Abril 3, 2008 · 1 Comentário
Um dos melhores discursos políticos de todos os tempos.
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Como foi criado o logotipo das Olimpíadas da China
Abril 3, 2008 · 2 Comentários
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Escrever bem é combater o mal.
Abril 3, 2008 · 5 Comentários
De todas as coisas que eu já li, uma das que mais me transformou foi um ensaio do George Orwell intitulado “Política e a Língua Inglesa”. Nesse texto, que você acha facilmente na Internet, Orwell apresenta a seguinte teoria: se todos fossem obrigados a falar e escrever de modo simples, claro e objetivo haveria uma revolução nas estruturas de poder. Seu argumento é que a linguagem clara e simplificada dificulta o engodo generalizado necessário para que uns poucos se sobreponham a muitos.
Sua idéia é poliglota: boa em qualquer língua. Reza que quem têm o poder está sempre tentando confundir, desorientar, enfraquecer e enlouquecer quem não tem. E que a língua é uma das principais ferramentas para este fim.
O exemplo mais óbvio é a escrita obtusa e evidentemente mal intencionada usada pelos advogados. Gente que ao invés de escrever para a empregada, “Acabou a manteiga. Por favor compre mais. Tem dinheiro no balcão” escreve “Feita a exegese da câmara frigorífica notei que falta-lhe no interior a pasta laticínia. Portanto, venho por meio desta solicitar a obtenção de novos suprimentos mediante o prévio depósito pecuniário em local de seu conhecimento.”
O que é perfeitamente natural, pois o Direito, que todo mundo acha que tem a ver com “Justiça” na verdade é o estudo da manutenção e exercício do poder através das leis e de sua interpretação. A mentira já começa na historinha de que os advogados se interessam e lutam pela “justiça”.
Aliás, pode reparar, sempre que um sem-vergonha quer enganar você ele usa um monte de termos abstratos como “justiça”, “progresso”, “modernidade”, “avanço”, “liberdade” ou “destino”. E ameaça você com inimigos imaginários como o “terrorismo”, “as elites”, “os imperialistas”, “as forças ocultas”, “os aloprados”, etc. Da “Guerra conta o Terror” do Bush, aos ataques do Lula contra “as elites”, passando pelos enormes textos que explicam pra você que aquilo na parede do museu é uma obra de arte e não uma infiltração, tudo isso é coisa gente que quer ver você numa pior.
Semana passada, numa clara manifestação desse espírito, o Prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, afirmou que “existem pessoas querendo prejudicar o trânsito de São Paulo”, sugerindo que haveria um espécie de “complô” para atrapalhar a sua gestão (e portanto suas chances de reeleição) agredindo nossa inteligência, semeando a desinformação e confundindo em vez de fazer aquilo que os nossos impostos lhe pagam pra fazer: trabalhar.
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