Entradas do Fevereiro 2008
Outro dia, tomando um birináite, com meu grande amigo João Vicente, conversávamos sobre a importância de levar a vida em conjunto. Falávamos de como ninguém faz nada de importante sozinho. De que em turma fica mais fácil encarar tudo: da briga de rua ao sucesso profissional. Até que ele mandou a frase síntese: “No Antiquarius não tem mesa pra um.” Aos 24 anos, João Vicente já possui a sabedoria de um senhor de 68 anos, que é a idade média dos poderosos, famosos e bem sucedidos freqüentadores deste que é um dos melhores restaurantes do Brasil.
Caso você decidisse pegar um empréstimo no BNDES pra pagar um almoço por lá, ia reparar que cada um que chega sempre para pra papear com uma ou duas outras mesas antes de sentar na própria.
Anos atrás, quando eu trabalhava na W/Brasil, voltando de uma reunião, o Washington me convidou pra almoçar com ele lá. Logo que sentamos surgiu o Roberto Civita, dono da Editora Abril, pela porta. Parou na mesa pra dar um oi pro com o Washington. Eu, com plena percepção da minha insignificância histórica, rapidamente mimetizei o ambiente, ficando congelado com cara de guardanapo, ouvindo tudo e falando nada. Já os dois falaram sobre política, conjuntura econômica, a situação dos meios de comunicação e propaganda. Foi como tirar um diploma de comunicação em 15 minutos.
A turma do Washington, por exemplo fez um belo estrago. Durante muitos e muitos anos, quem dirigia quase todos os comerciais do Washington era o Julio Xavier (“Primeiro Sutiã” entre muitos outros), que por sua vez é primo do Boni (o famoso Boni da Globo), que por sua vez mandava fazer os jingles da Globo numa empresa de música que tinha como sócios o Nelson Motta, o Marcus Valle, Paulo Sérgio Valle e o André Midani, que por sua vez foi o executivo de gravadora por trás da Bossa Nova, da Tropicália e do Rock Brasil nos anos 80. E é claro, eram da mesma turma. Assim o ciclo da qualidade se fechava, com cada um garantindo sua parte. Uma boa emissora precisa de bons comerciais, que precisam de bons roteiros, que precisam de bons diretores, que precisam de boas trilhas, que precisam de grandes compositores que precisam de uma indústria fonográfica forte.
Hoje, que temos um milhão de novos jeitos de nos comunicar, interligar nossos interesses e negócios, nossas paixões e implicâncias, fica cada vez mais importante fazer parte de uma turma. Músicos, estilistas, designers, grafiteiros e empresas se juntam em unidades chamadas “coletivos”. Não temos mais que “Dividir para conquistar”. Temos sim, é que nos unir para conquistar.
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Se você se surpreendeu com a renúncia de Fidel Castro, vai se surpreender mais ainda com este achado. Um amigo hacker cujo nome não posso revelar invadiu o computador pessoal de Fidel Castro, um Kbostka, modelo soviético dos anos 70, e roubou da máquina do mais querido ditador homicida do continente sua lista de coisas pra fazer na aposentadoria. Infelizmente, nem minha fonte nem eu somos confiáveis, mas a lista está aí, pra quem quiser ler.
1. Como último ato presidencial, liberar as compras na Internet apenas para ex-presidentes.
2. Aparar esta maldita barba.
3. Trocar todas as fardas militares puídas por abrigos Adidas dos anos 80.
4. Fazer teste para Buena Vista Social Club 2 (talvez com uma versão em salsa da Internacional Socialista?)
5. Começar criação de hamsters. Procurar em Pet Shop na Internet mini-implementos de tortura, mini-calabouço e espingarda de chumbinho.
6. Fazer operação de redução do saco. O chão anda muito gelado.
7. Pedir para o companheiro José Dirceu intermediar negócio com a companheira Bruna Surfistinha.
8. Assistir aqueles DVD piratas de “Os Sopranos”, “Seinfeld” e “Friends” que o Gabriel García Márquez me deu.
9. Passar menos tempo com o Chavez da Venezuela e mais com o do SBT.
10. Comprar Nintendo Wii.
11. Esmagar grupos insurgentes que tentam divulgar que meu irmão Raúl é um Muppet.
12. Arrumar boquinha como adido cultural na Toscana.
13. Prestar consultoria de marketing para ditadores impopulares como aquele baixinho da Coréia do Norte, como é mesmo o nome dele?
14. Levar os programas de alfabetização cubanos até os rincões mais ignorantes e retrógrados do PMDB.
15. Retomar os cursos por correspondência abandonados. Começar por: “Como fazer discursos mais curtos e interessantes.”
16. Pedir para o companheiro Chico Buarque trazer alguns Viagras e Cialis escondidos no Violão.
17. Escrever livro de auto-ajuda para executivos. Título provisório: Botando a concorrência no paredón.
18. Propor contrato de exclusividade de uso imagem com a TVA pra enfrentar aquele ditador russo dos comerciais da NET.
19. Checar se aquele cartão de crédito corporativo que o companheiro Lula me deu funciona na Internet.
20. Trocar cargo no cartão de visitas para Ex-ditador homicida.
21. Retomar projeto de criar um exército de Kikos Marinhos para invadir a Flórida.
22. Procurar parentes na Internet. Quem sabe aquela gostosa da Carol não é minha prima?
23. Propor para a Grow a criação do Super Trunfo Grandes Ditadores. Escolher uma foto boa como aquela do Che pra minha carta.
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“Toca, Raúl!”
Frase de gênio, do popular e democrático Ricardo Silveira, o Nariz, transmitida pelo não menos genial Kleber Fonseca.
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Em 1994 uma música extraordinária chamada “Lá vem o Negão”, do grupo Cravo e Canella tomou conta das ondas de rádio do Brasil. Extraordinária porque quando uma música conquista o país de Noel e de Cartola, de Vinícius e Candeia, de Roberto e Erasmo, de Ary Barroso e Adoniran, alguma coisa ela precisa ter. É como dizem no interior: “Se uma vaca é malhada, pelo menos uma pinta ela tem.” E até ontem, eu não entendia de onde vinha o magnetismo que cativou a nação.
Sim, eu era capaz de perceber a intrigante sugestão do Negão como uma espécie de canivete suíço da sacanagem, o homem disposto a encarar todas, com amor e sem preconceito que é como deve ser. E também percebia a qualidade chicletistica e ringtoniana da melodia. Mas a ficha mesmo, só me caiu esta semana, assistindo ao telejornal.
Ao acompanhar as notícias da corrida eleitoral Americana percebi a força da clarividência refletida nos olhos esbugalhados de tia bêbada em casamento de Hillary Clinton, editada contra o sorriso confiante de Barack Obama. Então era isto! Uma premonição! O Brasil já sabia em 1994 que lá vinha um negão, cheio de paixão, te catá, Mrs Clinton. Não é que o Brasil é o país do futuro mesmo. Do futuro dos Estados Unidos.
Ainda assustado com aquele momento Padre Quevedo, corri à Internet para buscar a letra da música e qual não foi o susto que tomei. Como uma brincadeira do copo que fica sem graça quando sua amiga gira o pesco 360º graus e começa a falar aramaico. Transcrevo aqui alguns trechos para que analisemos:
“Lá vem o negão / Cheio de paixão /Te catá, te catá, te catá” Ok, até aqui já está claro que Obama vem crescendo nas brechas da candidatura de Hillary. “Querendo ganhar todas menininhas /Nem coroa ele perdoa não”. Uma alusão à vantagem que o Sr. Barack apresenta entre os eleitores jovens e os endinheirados. “Fungou no cangote /Da linda morena”. Aqui, Obama cutuca a administração Bush representada na figura de Condoleezza Rice. “Te catá, te catá, te catá/ Loirinha com a fungada do negão /É um problema”. Bom, tem alguma outra loirinha disputando a presidência dos EUA?
E como se isso não fosse o bastante, a canção espezinha a condição de mulher traída de Hillary e seu compromisso com o status quo do Big Business americano: “Se ninguém soube lhe amar /Pode se preparar chegou a salvação / Só alegria, pode se arrumar /Que chegou o negão /Mas se é compromissada /É melhor não vacilar/ Basta um sorriso um olhar /Para o negão te catar.”
Pra explicar uma música daquelas, só uma teoria dessas.
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A melhor propaganda de Dramin jamais feita.
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Flight of the Conchords. O seriado é brilhante. Mas essa canção da dupla narrando o amor conjugal da quarta-feira a noite é obra e gênios.
Dica da Renatinha Leão.
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O primeiro crime que acontece no novo filme dos Irmãos Cohen, indicado para receber 8 Oscars, é a tradução do título. No Country for Old Men (Não é Terra para Velhos) se tornou Onde os Fracos Não Tem Vez. A tradução é criminosa por que o filme não é sobre a fraqueza. O filme é sobre a velhice — a dificuldade de se carregar a soma das desilusões de toda uma vida. Sobre como cada um lida com o fim sempre certeiro da peleja entre a vida e a morte. Sobre a decomposição física de uma geração e sua troca por outra.
Devo confessar que sou um grande fã do autor da história, Cormac McCarthy que descobri em outro livro: Como e Por Que Ler, do crítico literário Harold Bloom. Ali, Bloom fala de Meridiano de Sangue ou o Crepúsculo Vermelho no Oeste, livro de McCarthy baseado em fatos reais ocorridos na década de 1850, que tem no Juiz Holden um personagem até mais terrível e perturbador do que o vilão Anton Chigurh, de Onde os Fracos não Tem Vez. Em muitas e muitas críticas que li por aí, vi os dois comparados ao Diabo. Para mim, é claro que são o mesmo personagem: o tempo. O Diabo quer o nosso mal. O tempo só quer a nossa morte.
Na maioria das críticas que li em revistas ou na Internet também não vi ninguém comentar nada sobre isso, talvez porque a maioria dos críticos não leu o livro que deu origem ao filme, nem os outros livros do autor e por isso tiveram de apreciar o filme apenas pelo que ele nos apresenta de imediato. Daí, percebi o quanto eu pude aproveitar mais o filme como leitor e espectador, do que só como espectador, mesmo já sabendo tudo que iria acontecer de antemão.
Como leitor, percebi que Anton Chigurh não é só um nome estranho. Anton sugere Antonimous (antônimo) ou oposto, contrário — perfeito para alguém que é o antagonista da vida. E como espectador encontrei em Javier Bardem a expressão perfeita para o rosto do tempo: a indiferença (bem simbolizada pelo jogo de cara-ou-coroa). No filme, os irmãos Cohen optam por esconder que Llywelyn Moss foi um franco-atirador no Vietnam. E que não aguenta ser apenas um soldador que mora num trailler depois de ter sido um caçador de homens. Já se sente morto antes da perseguição começar. E finalmente, no rosto rasurado de Tommy Lee Jones encontrei a hombridade que faltava ao personagem do xerife Ed Tom, que tem mais medo da falta de sentido da violência do que da violência em si.
É por encarar de frente a falta de sentido da vida que tanto o livro quanto o filme são grandes obras de arte. Para a falta de sentido na tradução do título, deixo para Anton Chigurh a cobrança devida.
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