— Nossa, rapaz, o ano passou e eu nem vi.
— Todo ano você diz isso.
— Isso o quê?
— Que o ano passou e que você nem viu. Ano passado você falou isso. Era bom você ir num oculista.
— Oculista?
— Ué, a vida tá passando e você não tá vendo. As vezes é problema de vista.
— Eu não tenho problema de vista. Você é que tem problema de compreensão. Eu não quis dizer que eu não vi o ano passar. Eu vi o ano passar. Eu quis dizer que passou rápido. Que a vida passa e parece que não dá pra acompanhar.
— Aí é caso de problema no Fast Forward. Eu tinha um vídeo que era assim. Encrespou e passava tudo acelerado. Parecia aqueles filmes do cinema mudo em que todo mundo anda rapidinho e acena pra câmera.
— Do que é que você está falando?
— De Fast Forward. Ou você é que nem aquele deputado lá que passou a lei que tudo tem de ser em português? Tem de chamar Fast Forward de tecla de avanço rápido pra você entender?
— Pelo meu São Benedito! Eu só disse que o ano passou rápido por dizer. Nem pensei muito. Você transforma isso numa discussão maluca.
— Não precisa ofender. Você é que deixa a vida passar sem perceber e eu que transformo tudo em discussão maluca? Você é que está cegueta.
— Você nunca tem essa sensação que você não conseguiu fazer tudo que tinha de fazer no ano? Que ainda faltavam uns 3 ou 4 meses pra conseguir fazer tudo que você pensou que ia fazer este ano?
— Tipo o quê?
— Sei lá. Tipo entrar em forma.
— Porra! Primeiro me chama de maluco. Agora diz que eu tô gordo. Gordo é você, com essa barriguinha aí que parece uma pochete cheia de canhoto de cheque velho. Vou tomar uma decisão pra 2008. Começar o ano revendo as amizades.
— Pra quê isso agora? Não se briga em fim de ano. Fim de ano é época de abraço.
— Boa idéia. Um abraço pra você.
— Como assim?
— Um abraço. Vou embora.
— Mas já?
— Já.
— Fica mais um pouco, porra. A gente acabou de sentar pra tomar o nosso tradicional pilequinho de fim de ano. Cê nem acabou a primeira cerveja.
— Tudo bem, eu fico. Mas você tem de parar com essa história de repetir tudo que você disse o ano passado.
— Ah é? E o que foi que eu disse o ano passado?
— Que o ano passou e que você não viu passar. Que você ia entrar em forma. Que ia ligar mais pros amigos. Que ia ficar mais tempo com seus filhos e menos no celular. Que ia ajudar uma ONG. Que o Corinthians ia ser campeão. Que você ia mandar seu chefe pra aquele lugar. Que ia voltar a tocar violão. E que ia largar esse cigarro aí que você está fumando.
— Você lembra de tudo isso ou tá inventando?
— Tô inventando.
— Porra, eu assustei. Achei que tava ficando com a memória fraca. É a idade. A vida passa e a gente nem percebe.
— Lá vai você de novo.
—

