Um certo dia, não muito tempo atrás, surgiu o primeiro personal trainer. E junto com ele a idéia da terceirização das qualidades pessoais. Ao elogiar o material de uma nova namorada você pode ouvir: “Ah, essa bunda aqui não é coisa minha, não. É o resultado do trabalho e da dedicação do Richardley, meu personal trainer! Eu só carrego ela.” Nada contra os personal trainers, que realmente deixam as pessoas mais saudáveis e são profissionais sérios. O problema é mais embaixo.
A terceirização de qualidades pessoais é a idéia de que para se melhorar você não precisa de esforço pessoal, disciplina ou responsabilidade. Precisa só de dinheiro. Hoje, você pode contratar um personal trainer pra cuidar do seu corpo, uma personal stylist pra montar seu guarda-roupa, um personal decorator pra decorar a sua casa ou um personal dog-walker pra sair pra passear com seu cachorro. Mas o que me deixou nervoso mesmo foram dois novos terceirizadores de personalidade.
Primeiro, o personal friend, que segundo me explicaram é alguém que você paga pra ser seu amigo. O personal friend se interessa por seus assuntos de trabalho, seus hobbies e suas manias. Está sempre lá pra dar uma força e pode até lhe dar uns toques. Aliás, não fosse pelo boleto no fim do mês, ele bem que poderia ser seu amigo. O outro é o personal iPoder, o profissional que mantém o seu iPod sempre cheio de músicas atualizadas e que pegam bem.
Novamente, nada contra qualquer um que tente ganhar a vida honestamente prestando serviços. Aliás, tudo a favor. Mas eu pergunto, onde isso vai parar? No personal fucker que transa por você? “Aê, nem te conto, mandei meu personal fucker pro motel com a Duda lá do trabalho.” No personal voter, que vota pra você? “Ah! esse Congresso está um horror, supercorrupto, vou despedir meu personal voter.” No personal meeter, que vai nas reuniões que você não quer ir? “Rapaz o meu personal meeter fechou um baita negócio!” Na personal sufferer? Que vai sofrer no lugar das mulheres, seja na separação ou na depilação. Ou no personal reader, seu leitor pessoal? “Tô superfeliz, meu personal reader acabou de ler Guerra e Paz e eu já passei pra ele Os Sertões.”
Se isso realmente acontecer eu vou ter que contratar um personal writer, que vai escrever as colunas pra mim além de ter as opiniões que eu gostaria de ter. Com um pouco de sorte, o seu personal reader vai ler e vai concordar por você. E assim ninguém —nem eu nem você —terá e arcar com o peso de viver sua própria biografia.

