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Entradas do Agosto 2007

Orkuticídio não é solução

Agosto 30, 2007 · 5 Comentários

A primeira vez que eu senti que o Orkut estava meio esquisito foi quando algumas de minhas tias mais distantes e primos de 5 anos começaram a solicitar on-line a amizade que lhes era de direito por consanguíniedade. Mmmm. Aquilo era estranho. Mas o Orkut ainda parecia saudável e não apresentava outros sintomas mais preocupantes.

Depois vieram as famosas invasões de Orkut. Quem não conhece alguém que teve sua página invadida? Subitamente um amigo advogado começava a mandar mensagens estranhas insinuando homossexualismo? Batata. Ele era gay. Não, não era. Era um babaca que tinha invadido o Orkut dele e mandava as mensagens achando aquilo tudo muito engraçado. Como se sabe, os babacas tem um senso de humor muito especial que só eles entendem.O Orkut começou a ter umas tosses estranhas.
No encalço das minhas tias outros grupos suspeitos passaram a usar Orkut para se reunir. Pedófilos, traficantes, torcidas organizadas, neo-nazistas e deputados passaram a criar suas próprias comunidades para promover suas maquinações diabólicas. Não foi uma fase boa para o Orkut. Sorte nossa que logo a Polícia Federal formou sua prória comunidade e com a operação “Scrapbook” desbaratou os malfeitores. Mas o Orkut não dava sinais de melhora. Piadistas do café na firma já começavam a abandonar piadas consagradas como “Orkut bêbado não tem dono.” etc.

Até que finalmente veio o golpe fulminante, o duble-nelson-voador-com-joelhada-no-vácuo contra a saúde do Orkut: o www.myspace.com. O Myspace é o Orkut dos americanos. Ou você acha que os americanos iam gostar de um site com nome de turco e cheio de brasileiros. Enquanto o Orkut parece um formulário o Myspace é todo costumizável, dá pra botar fotos, músicas, vídeos e o escambau. Se não acredita, vai lá vistar o meu que a gente fica amigo: www.myspace.com/rodrigoleao.

E se não bastasse tudo isso, outro dia uma amiga minha me contou que depois de uma temporada sem visitar o seu Orkut ficou chocada. “Eu tinha uns cento e tantos amigos e quando voltei só tinha uns quarenta. O resto tinha cometido orkuticídio!,” disse ela. “Orkuticídio? Que porra é essa?” perguntei com minha habitual elegância. Ela explicou: “Orkuticídio é tirar sua página do Orkut do ar. Tem gente que até escreve uma mensagem de despedida, tipo uma carta de orkuticídio.”

Por isso venho aqui hoje fazer este apelo a você que está contemplando o orkuticídio. Não tome nenhuma decisão abrupta. A vida no Orkut ainda pode valer a pena. Abaixe esse mouse e vamos conversar. Eu mesmo tenho várias tias e uns primos de 5 anos pra te apresentar.

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A Ponte do Rio Kwai

Agosto 22, 2007 · 2 Comentários

brasil-dentro-da-musica.jpgOutro dia eu descobri que o Brasil que eu amo só existe na música. Mais do que isso, descobri que o Brasil que me dá saudades quando eu viajo, o Brasil que eu tento explicar para os amigos estrangeiros, o Brasil que ainda me dá vontade de trabalhar, o Brasil que eu quero ensinar para o meu filho, enfim, o Brasil onde eu vivo, só existe na música. Se eu tivesse de morar no Brasil do telejornal eu acho que eu ia precisar me mudar.

Isso me ocorreu porque ultimamente eu ando pesquisando o sambajazz. E no meio disso me deparei com “Os Afrosambas” do Baden Powell e do Vinícius de Moraes. Acabei encasquetando com a obra do Vinícius e além de reouví-la, fui rever o domumentário “Vinícius” de Miguel Faria Jr. Foi então que eu percebi que o Brasil da Bossa Nova nunca existiu de verdade. A vida nunca foi gostosa daquele jeito em nenhum lugar em toda a longa crônica da história humana. O que nós temos é uma memória coletiva falsa criada pela poesia e música de Vinícius, Jobim, Baden, Bonfá e tantos outros. Ninguém lembra do racismo ou do cotidiano de violência contra a mulher nos anos 60. A gente lembra de “Canto de Ossanha” e “Garota de Ipanema”. Aquele grupo de músicos e poetas inventou um Brasil que nunca existiu, Mas que de tão bem inventado, virou verdade. É como aquela música assoviada do filme “A Ponte do Rio Kwai”. Ninguém lembra do filme, só da música. A música brasileira é a melhor propaganda do Brasil. Se o governo quisesse realmente fazer propaganda do país, bastava desonerar os impostos da indústria da música que a turma fazia o resto. Aliás, a origem etmológica da palavra Propaganda, que vem do latim moderno, quer dizer “para ser espalhado” e vem da expressão “Propagação da Fé” (Propaganda Fide). A música brasileira é uma fé que precisa ser espalhada. Até porque, as notícias ruíns se espalham sozinhas.

Semana passada eu estava em Nova York e perdi propositalmente a estréia do elogiadíssimo documentário “Manda Bala“, vencedor do Festival Sundance deste ano e que mostra o Brasil como ele realmente é. O filme traça um paralelo entre a roubalheira do caso do ranário da mulher do Jader Barbalho e a indústria da violência e do sequestro no país. O slogan do filme é: “Quando os ricos roubam dos pobres os pobres roubam os ricos.” Queria assistir ao filme pra comentar com você em primeira mão e porque tudo que eu li sobre ele diz que se trata de uma obra-prima do formato documental. Não tive estômago. Preferi zanzar pela cidade cantarolando velhas canções do Jorge Ben.

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Um Buda p da vida

Agosto 22, 2007 · 1 Comentário

titulo-bom.jpgCom as mãos trêmulas entreguei mais algumas folhas de papel para o redator que parecia um Buda puto da vida sentado na escrivaninha à minha frente. Ele era famoso e premiado. Eu era estagiário. Você não sabe, mas muitos estágiários na área de criação em propaganda não aguentam a pressão dos primeiros meses de trabalho: uns descem escondidos pra tomar um rabo-de-galo na padaria, outros choram no banheiro e tem até os que desistem.


Nada disso importava naquele momento. O redator, como César decidindo quem vai virar comida para os leões e quem vai pra casa ver TV, lia com calma os trocentos títulos nas páginas à sua frente. “Hmmm…”, ele fazia. Vez por outra, com a caneta em punho, marcava um pontinho preto ao lado de uma das frases. Cada vez que ele fazia isso o Freddie Mercury começava a cantar dentro da minha cabeça “We are the Champions”. Eu ali ao lado, em pé e contrito, velando os títulos falecidos no campo de batalha.
Você também não sabe, mas para cada título (aquela frase em destaque no anúncio ou outdoor) que você lê, uns cinquenta perderam suas vidas em uma das etapas de aprovação. O mesmo serve para os comerciais de TV e rádio, banners de internet e o escambau.
Daí surge o grunhido agudo que os criativos soltam quando alguém lê a peça e manda aquele famoso: “Hmmmm…não sei… acho que pra mim meio que não bateu, sabe?” Muita gente pensa que é vaidade (e em muitos casos é mesmo) mas na maioria das vezes não é. A careta de diabo japonês de tatuagem que fazemos é apenas um sinal de respeito pelas idéias jogadas fora. Você pode até dizer: mas se o cara é um cretino e teve cem idéias cretinas isso não é bom? É. Mas é dolorido do mesmo jeito.


O redator havia selecionado uns cinco títulos entre os quase cinquenta que eu apresentei. Ufa. Minha barra estava limpa. Aí, eu empolguei e apontei mais um. “E esse aqui, você não gosta?” “Não. Esse aqui é muito inteligente. Não presta.” Fiquei paralizado. Inteligente nessa profissão é defeito? Que porra é essa?


Logo eu descobri. Propaganda tem de ser rasa, rápida e simpática. Como uma boa cantada ou uma conversa que se puxa numa fila de banco. Se for muito sagaz é pedante. Se for pouco, é burra. Tem de ser feita exatamente na medida de quem lê, ouve ou assiste. Não na medida de quem faz propaganda. Por isso, quando alguém reclama da burrice dos publicitários brasileiros, na verdade está reclamando da própria. A qualidade da propaganda é por definição a média da qualidade da cultura de um país. Juro que não é por falta de esforço que ela não é melhor.

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O que os olhos não viram mas o coração sentiu

Agosto 9, 2007 · 4 Comentários

No dia em que eu conheci pessoalmente o Jaime Lerner ele não me conheceu. Provavelmente porque eu estava no meio de uma platéia e ele lá na frente palestrando. O arquiteto e urbanista de fama internacional, ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Estado do Paraná, nos contava como botou Curitiba no Mapa Mundi com suas idéias sobre urbanismo, responsabilidade social e ecologia.

Logo no comecinho da palestra ele lançou um desafio à platéia: quantos ali sabiam desenhar a cidade de São Paulo? Ninguém sabia. Ele prosseguiu: “Como é que você pode amar e respeitar alguma coisa se você não tem uma imagem mental de como ela é?” Segundo ele, desenhar o mapa da cidade onde você mora é uma maneira de entendê-la melhor. De fazer mais parte dela e deixá-la fazer mais parte de você.

Eu estava pensando nisso durante a pré-estreia do documentário “Person” que fui assistir nesta segunda-feira. Uma linda obra de amor dirigida pela filha do cineasta, Marina Person, mais conhecida como VJ da MTV, mas cineasta bem antes disso.

Não é nenhum segredo que a minha ignôrancia é bastante vultuosa. Mas até esta segunda-feira ela era maior porque incluia a obra do cineasta Luís Sérgio Person. Não sabia xongas dele. Um vexame. Agora eu sei tudo. Do começo de carreira como ator à sua viajem de estudos à Itália — de onde voltou diretor premiado. Conheci exitos como “São Paulo S.A.” e “O caso dos Irmão Naves” e suas derrotas — as chanchadas e comédias que se viu obrigado a dirigir. Fiquei sabendo da sua importância na descoberta e incentivo de inúmeros talentos, dentre os quais José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Durante a hora e pouco de projeção estive com figuras famosas do teatro, do cinema, da música e da cultura relembrando sua personalidade encantadora e seu temperamento explosivo. Mas o que mais me impressionou no filme foi a imagem completa que consegui fazer de Person. Entrei pra assistir um filme sobre um artista. Saí tendo assistido a um filme sobre um homem por inteiro.

Person morreu com menos de 40 anos, num terrível acidente de carro, quando a filha Marina tinha apenas 6 anos de idade. Para produzir, rodar e levar as telas o documentário, Marina levou 8 anos. Ou seja: a realização da obra acabou sendo mais longa do que a própria vida que teve ao lado do pai. Para enxergar melhor o pai, e talvez poder amá-lo um pouco mais, fez um lindo filme. E de quebra permitiu que enxergassemos tudo aquilo junto com ela.

Nesta segunda-feira conheci pessoalmente Luís Sérgio Person, mas ele não me conheceu. Provavelmente porque eu estava na platéia e ele na tela, tendo o mapa de sua vida desenhado com perfeição pela própria filha.

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Não se aparta briga de mulher feia

Agosto 2, 2007 · 5 Comentários

beijo.jpgFazer uma campanha publicitária contra a corrupção é como compor uma canção para combater a sífilis: pode até ser que funcione, mas soa meio esquisito.

Eu digo isso porque lançaram uma campanha chamada “Cansei”, contra o caos aéreo, a corrupção e essa baderna generalizada que se chama Brasil. E a tal da campanha está dando o maior bafafá.

O quiprocó está rolando porque a campanha tem como patronos um pessoal bacanão, ricão e que voa de avião. Só que outros bacanões, ricões, que também voam de avião (mas que se dizem de esquerda) acharam que era armação política da oposição contra o governo e começaram a avacalhar a campanha e seus patronos.

O pessoal a favor do “Cansei” diz que se trata de um movimento cívico importante e que a gente tem de se mobilizar contra “isso tudo que está aí”. O pessoal que não gosta deles diz que quem é responsável por “tudo isso que está aí” são os próprios caras que bolaram a tal da campanha do “Cansei”.

Os ânimos estão acirrados de todos os lados. Ouvi o jornalista Alexandre Machado no rádio na segunda-feira dizendo, inconformado, que na passeata do “Cansei” foram apenas 7 mil pessoas enquanto na Parada Gay foram 3 milhões e na dos evangélicos foram 4 milhões. Ele sugeria que estes números provam que o povo não se interessa por sua própria cidadania. Discordo.

É claro que a gente se mobiliza. Ele mesmo disse: 7 milhões foram as ruas pra mostrar que farão o que bem enteder com seus pintos, suas xoxotas, seu dinheiro e suas almas.

O problema é que, independente da inaceitável tragédia que tomou tantas vidas de forma súbita e desnecessária, o assunto “caos aéreo” simplesmente não mobiliza a turma. Quem acorda às 5hs todo dia pra ir trabalhar não vai sair de casa no domingo às 7hs, num frio da bexiga, pra estar as 9hs no Ibirapuera se manifestando contra o caos aéreo. O cara tá preocupado com o caos do transporte público. Até porque não adianta fazer passeata sobre assunto de vida ou morte. Se intenção é séria, que formem um partido político e façam de suas idéias a letra da lei. Passeatas e cancões de amor não mudam o mundo.

Por outro lado, a turma governista contra o “Cansei” se aproveita da confusão pra lançar cortinas de fumaça. Em vez de apagar as chamas do caos aéreo, ficam botando fogo nas lixeiras do entorno pra ver se o incêndio parece menor.

É por isso que eu resolvi tomar uma posição clara nesta briga: ficar de fora. Quem se mete em briga de mulher feia acaba levando um beijo.

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