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Entradas do Junho 2007

Nem todo diretor cabe em 30 segundos.

Junho 28, 2007 · 3 Comentários

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Tem diretores de cinema que cabem em 30 segundos. Esses são ótimos pra fazer propaganda. São como alguns dos grandes contistas que nunca se tornaram romancistas (Isaac Babel sendo o mais perfeito exemplo). Fizeram do conto uma arte mais curta, mas não menor. Esses diretores costumam ter longas e prósperas carreiras na propaganda. Outros diretores, dominam o formato de tal maneira que funcionam em 30 segundos, 1 minuto ou 2 horas. Bote nessa lista aí: os irmão Ridley e Tony Scott, Spike Lee, Alejandro Iñárritu, Fernando Meirelles, Andrucha Waddington e David Fincher. E existem ainda os diretores que simplesmente não cabem em 30 segundos. Para estes, o tempo de duração da obra é tão importante quanto o conteúdo da própria obra. E isso não os torna maiores nem menores. Apenas define seu talento. É de um desses que eu quero falar hoje.

Conheci o cineasta Beto Brant anos atrás, quando ele só tinha feito um longa-metragem, o sensacional, Os Matadores, e ainda dirigia comerciais e clipes. Na época logo pensei: “Pô! vou chamar esse cara pra dirigir uns comerciais lá na agência e vou me dar bem, o cara dirige muuuito.” Liguei na produtora onde ele trabalhava na época e pedi pra ver os comerciais e clipes dele. Foi aquela decepção.

Os comerciais do Beto eram, mmmm….excessivamente comerciais. Não pareciam nada com a sua obra: autoral, cheia de vida, conflito e intensidade. Mas antes que você abandone a leitura pensando que eu sou meio xarope (até porque, de fato, eu sou meio xarope), pois é óbvio que comerciais tem de parecer comercias, dã! deixa ver se eu consigo me explicar.

Um bom comercial tem sempre de ter algo “a mais”. Uma ambiçãozinha secreta de ser mais do que uma peça curta em celuloide feita para vender um sabonete. O comercial, nas noites de insônia, sonha em transmitir uma emoção humana universal, uma estética inovadora, lançar uma gostosa ao estrelato, inaugurar um novo efeito especial. A gente lembra dos comerciais não pelo que eles estão vendendo, mas a pesar do que eles estão vendendo. Até porque, quanto um comercial entra em depressão e se entrega a sua natureza comercial ele se torna um vídeo institucional, que é um comercial bem comprido que as pessoas só assistem porque são obrigadas.

Lembrei disso tudo porque fui assistir Cão Sem Dono, o novo filme do Beto, co-dirigido pelo genial Renato Ciasca. Cão Sem Dono é um longa curtinho. Mas puxa vida: como é repleto de intimidade, humanidade, simplicidade, sexualidade, medo, força e tudo que a gente espera quando paga as 15 pilas na bilheteria. Nunca me senti tão próximo de um filme. A angústia dos vinte e poucos anos virando trinta e poucos anos, a dificuldade de amar o que está na sua frente e não o que se imagina que será o amor, os diálogos profundos nas situação mais banais.

E tem três coisas imperdíveis : o ator Julio Andrade no papel de Ciro, o figurinha com cara de “cão sem dono”, a atriz Tainá Müller, no papel de Marcela, que valeria fácil mais 30 reais no preço do ingresso e a cena em que ela canta “Moonshiner” da Cat Power na cama com ele tocando violão. Clássica.

Cat PowerMoonshiner

Ainda bem que durou muito mais do que 30 segundos.

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CD da semana: “Version” do Mark Ronson

Junho 22, 2007 · 2 Comentários

O meu amigo Rafa apresentou o CD da semana: Version, do Mark Ronson. O Mark é o cara que produziu Back to Black da Amy Winehouse e também o CD de estréia da Lilly Allen. Já trabalhou com Macy Gray e Jay-Z. Version é um álbum todo de versões de músicas que ele gosta. Tem uma versão instrumental meio ska meio abertura de seriado dos anos 70 pra God put a smile upon your face do Coldplay e uma outra pra Stop me do The Smiths misturada com Keep me Hanging on das Supremes e participação do Daniel Merriweather. O disco tem ainda participações de Amy Winehouse, Lilly Allen, Kasabian, Dirty O’ Bastard. Faz tempo que não pinta um produtor legal assim na cena pop. Vale conferir.

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Brincadeira provocativa

Junho 21, 2007 · Deixe um comentário

Não sei se é o café aqui da firma. Mas pela manhã os diálogos bizarros abundam.
O de hoje aconteceu as 9H36. Chega um amigo de uma empresa coligada e lança o seguinte papo:

— Eu vi um a imagem sobre TV digital e pensei num anúncio que fosse uma brincadeira provocativa.

— Brincadeira provocativa?

— É. Uma brincadeira provocativa.

— Fotos suas pelado?

— Não.

— Ainda bem.

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Seja você também um mini-gênio.

Junho 20, 2007 · 3 Comentários

mini-genio.jpgJunto com a mini-palestra do Malcom Gladwell do post abaixo, o Giuliano Cesar me passou uma outra, também sensacional, do Barry Schwartz sobre o paradoxo da escolha: quanto mais opções de um produto existem maior é o nosso grau de infelicidade com a nossa escolha mesmo que ela seja ótima. Você já foi numa daquelas lojas de eletrônicos namorar uma TV de plasma ou LCD? Eu só fico lendo o preço. E celular então? Que tem um nome assim: P4297-B — será que é muito melhor do que o P4297-A? E por aí vai.

Mas como eu fiquei duas vezes mais mini-inteligente depois de ver as duas mini-palestras fui procurar e acabei descobrindo quem era o traficante de mini-palestras do Giuliano. É um site chamado http://www.ted.com que tem palestras de gênios de todas as áreas do empreendimento humano, falando sobre assuntos que dominam, com foco na concepção e criação de um mundo melhor.

Na mini-palestra do Barry ele advoga que o excesso de escolhas torna as pessoas mais infelizes. Mas no livro do Gladwell, o “Blink”, tem uma passagem que fala sobre escolha de produtos e conta um causo de um experimento onde consumidores eram convidado a comprar (ou escolher) geléias.

Cada grupo de controle recebia uma quantidade diferente de opções de geléia. Uns tinham 3 opções, outros 6, outros 12 e outros ainda, 24 géleias de sabores diferentes. O grupo que recebeu 6 opções comprou 30% mais geléias do que os outros. Isso quer dizer que existe um número de opções que agrada as pessoas. Pouca opção é uma coisa ruím. Muita opção também. Saber qual é esse limite não é coisa para mini-inteligentes como eu e você.

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Blink – pensando sem pensar

Junho 20, 2007 · Deixe um comentário

Semana passada eu li um livro chamado Blink — Thinking Without Thinking. Tão bom que dá dor de cabeça. O autor, Malcom Gladwell é um dos redatores da New Yorker e este é o seu segundo livro. Fala de como as pessoas fazem suas ESCOLHAS e JULGAMENTOS. Desde porque alguém escolhe uma geléia de morango e não a outra até porque um policial atira ou não em alguém. Explica como nossas primeiras impressões afetam nossas vidas (seja “amor a primeira vista” ou “Não fui com a cara daquele feladaputcha!”). Tem um capítulo que fala sobre a falta de tato e inteligência de algumas pesquisas de mercado. Pra quem tem de lidar com isso na vida, é munição da boa.

E comentando com meu amigo Giuliano Cesar sobre o livro ele me arrumou essa mini-palestra do autor. Fique muito mais mini-inteligente e mini-informado depois de assistir.

E encomendei o primeiro livro dele “The Tipping Point”. Quando chegar eu comento.

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Posteridade é o que vira pôster?

Junho 15, 2007 · 2 Comentários

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Conversa no café aqui da firma. 9:58 da manhã.

Eu: Pô Robson, vai ser legal se aquele papo de te chamarem pra fazer ilustrações na Rolling Stone rolar. Mas já sabe, né? Revista paga pouco.

Robson: Grana é bom, mas não é determinante. Tô pensando na posteridade.

Rafael: Vai fazer um pôster e colar na parede pra mostrar pros amigos?

Pensamento do dia:

Nosso verdadeiro legado para a posteridade são nossos momentos posterizáveis.

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Que atirem o primeiro tijolo.

Junho 14, 2007 · Deixe um comentário

Mal comecei a blogar e já estou errando. Meu amigo Guime mandou uma correção interessante a respeito do texto que fala das casas de publicitários. Diz respeito à TBWA / Chiat Day em Los Angeles:

“A agência onde o Rodrigo Butori trabalha hoje foi projetada pelo Clive Wilkinson, e fica em Marina Del Rey. Aquela do Frank Gehry foi deixada para trás em 1998, em Venice. Genial, porém pequena e pouco funcional. A nova é melhor. Assim como no fundo, o Lee Clow é melhor que o Jay Chiat. Mas não espalha.”

Guime sabe do que está falando. Fora que é uma prova viva da teoria da coluna. Tem os livros, os links e a casa pra provar. Olha só:

vigor_concreto.jpg Chateaux Guime

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Tirando um jingle do Cartola

Junho 11, 2007 · 3 Comentários

Cartola, que tirou muitos coelhos da cabeça.     A grande diferença entre um jingle publicitário e uma canção propriamente dita é que o jingle tem obrigação de falar bem de alguma coisa, enquanto a canção tem a obrigação de falar a verdade.
Aliás, algumas das canções mais lindas do mundo são também as que narram as verdades mais tristes. Como “O mundo é um moinho” que o gênio Cartola compôs para sua filha —uns dizem que foi porque ela estava se prostituindo, outros porque se amasiou de um camarada.Tanto faz. O que vale é a dor pessoal que o poeta fez de todos nós. Transcrevo a letra pra gente se lembrar.

“Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que iras tomar
Preste atenção querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões à pó
Preste atenção querida
Em cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés”

Imagine só a versão jingle dessa obra prima. Como se sabe, um jingle tem de ter expressões modernosas, palavras de ordem, um astral positivo e uma mensagem “fun” e “energetic”, como dizem as cartilhas de marketing multinacionais. E um jingle nunca pode ser do contra. Então teria de ser a favor da prostituição. Lá vai:

Essa é a hora baby
Cê tá sacando qual é o lance da sua vida
Só vai embora quando estiver a fim
Pode escolher o caminho que quiser trilhar
Se liga aí garota
A gente sabe que cê é decidida
Em cada esquina você curte mais a vida
Em pouco tempo vai estar rica pra valer
É isso aí amor
Preste atenção o mundo é como um bolinho
Pra devorar em sonhos gostosinhos,
E pra curtir do jeito que quiser
Dá só um look girl
De cada amor você vai ter a melhor parte
Dinheiro alto pra transar é sua arte
A arte de ser fácil e mulher.

Fica meio estranho, né? Mas enquanto o jingle tem várias desculpas pra existir (seu objetivo é vender de um jeito menos chato do que só falar do produto, a agência paga pra ele tocar, as produtoras de som capricham nos arranjos) as canções que tocam nas rádios hoje em dia não têm nenhuma desculpa. São jingles de atitude jovem comissionados pelos departamentos de marketing das grandes gravadoras pra tentar desesperadamente agradar ouvintes cada vez menos interessados. E sabe porque ninguém mais está interessado em ouvir essas canções? Porque elas não nasceram pra nos dizer a verdade.

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E agora, Jose Gonzales?

Junho 11, 2007 · Deixe um comentário

Jose Gonzales por Robson Oliveira

Jose Gonzalez entrou no palco como quem vai tomar um ônibus. Magro, descabelado e com a barba por fazer. Não se diferenciava em nada do público, junto ali na noite desta terça-feira passada para assistí-lo. Carregava na mão seu violão, de cordas de nylon, como quem carrega uma jarra d’água que não quer derramar.


O palco do teatro SESC Vila Mariana estava igualmente magro. Ao centro apenas uma cadeira simples, e alguns microfones. Sem falar nada, sentou-se, respirou longa e pausadamente. Começou a contagem com o pé direito. Podiamos ouvir seu pé. Havia um microfone no chão, como se tivesse sido esquecido ali por algum roadie descuidado. Curvou-se sobre o violão e embasbacou a platéia durante uma hora e pouco de um show perfeito.


Argentino de nascimento, Jose Gonzalez foi criado na Suécia, canta em inglês e foi revelado por um comercial de uma TV japonesa. Seu estilo lembra o inglês Nick Drake, o americano Ben Harper e brasileiro João Gilberto. Ou seja: um dos muitos filhos da globalização que vêm por aí. Ficou famosinho no exterior quando a música “Heartbeats”, do seu primeiro álbum “Veneer”, foi usada num comercial que a Sony fez para lançar suas novas TVs com telas de LCD. No comercial, que tem dois minutos e meio, milhões de bolinhas coloridas de borracha —literalmente — descem pelas ladeiras de uma grande cidade em câmera-lenta para dizer que a tal TV mostra cores como você nunca viu. Uma cena fantasmagórica, filmada em super-slowmotion (que é a câmera-lenta da câmera-lenta) mas que quando unida ao som intimista e acústico de Jose, provoca um efeito muito bonito. Só não digo poético porque quem diz isso ou não conhece poesia ou não conhece comerciais.

E o resultado desse comercial foi maior do que apenas um monte de TVs de LCD vendidas. A marca anunciante acrescentou algo de muito importante ao seu leque de valores. Presenteou os telespectadores com um novo artista para encantar suas vidas. Mostrou que não é só tecnologicamente avançada, mas também culturalmente avançada. Conhece a máquina mas reconhece o espírito que a preenche e que a faz ter valor.

Já no Brasil, os comerciais bem que podiam revelar ao grande público o talento da Céu, do Curumin, do Clube do Balanço, do Bid, do Funk Como Le Gusta, da Orquestra Imperial, da Mariana Aydar, da Roberta Sá e de tantos outros. Ajudariam a propaganda a fugir da sua atual prisão de relações públicas corporativa de volta para os braços da cultura popular.

link: www.myspace.com/josegonzales

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