Tem diretores de cinema que cabem em 30 segundos. Esses são ótimos pra fazer propaganda. São como alguns dos grandes contistas que nunca se tornaram romancistas (Isaac Babel sendo o mais perfeito exemplo). Fizeram do conto uma arte mais curta, mas não menor. Esses diretores costumam ter longas e prósperas carreiras na propaganda. Outros diretores, dominam o formato de tal maneira que funcionam em 30 segundos, 1 minuto ou 2 horas. Bote nessa lista aí: os irmão Ridley e Tony Scott, Spike Lee, Alejandro Iñárritu, Fernando Meirelles, Andrucha Waddington e David Fincher. E existem ainda os diretores que simplesmente não cabem em 30 segundos. Para estes, o tempo de duração da obra é tão importante quanto o conteúdo da própria obra. E isso não os torna maiores nem menores. Apenas define seu talento. É de um desses que eu quero falar hoje.
Conheci o cineasta Beto Brant anos atrás, quando ele só tinha feito um longa-metragem, o sensacional, Os Matadores, e ainda dirigia comerciais e clipes. Na época logo pensei: “Pô! vou chamar esse cara pra dirigir uns comerciais lá na agência e vou me dar bem, o cara dirige muuuito.” Liguei na produtora onde ele trabalhava na época e pedi pra ver os comerciais e clipes dele. Foi aquela decepção.
Os comerciais do Beto eram, mmmm….excessivamente comerciais. Não pareciam nada com a sua obra: autoral, cheia de vida, conflito e intensidade. Mas antes que você abandone a leitura pensando que eu sou meio xarope (até porque, de fato, eu sou meio xarope), pois é óbvio que comerciais tem de parecer comercias, dã! deixa ver se eu consigo me explicar.
Um bom comercial tem sempre de ter algo “a mais”. Uma ambiçãozinha secreta de ser mais do que uma peça curta em celuloide feita para vender um sabonete. O comercial, nas noites de insônia, sonha em transmitir uma emoção humana universal, uma estética inovadora, lançar uma gostosa ao estrelato, inaugurar um novo efeito especial. A gente lembra dos comerciais não pelo que eles estão vendendo, mas a pesar do que eles estão vendendo. Até porque, quanto um comercial entra em depressão e se entrega a sua natureza comercial ele se torna um vídeo institucional, que é um comercial bem comprido que as pessoas só assistem porque são obrigadas.
Lembrei disso tudo porque fui assistir Cão Sem Dono, o novo filme do Beto, co-dirigido pelo genial Renato Ciasca. Cão Sem Dono é um longa curtinho. Mas puxa vida: como é repleto de intimidade, humanidade, simplicidade, sexualidade, medo, força e tudo que a gente espera quando paga as 15 pilas na bilheteria. Nunca me senti tão próximo de um filme. A angústia dos vinte e poucos anos virando trinta e poucos anos, a dificuldade de amar o que está na sua frente e não o que se imagina que será o amor, os diálogos profundos nas situação mais banais.
E tem três coisas imperdíveis : o ator Julio Andrade no papel de Ciro, o figurinha com cara de “cão sem dono”, a atriz Tainá Müller, no papel de Marcela, que valeria fácil mais 30 reais no preço do ingresso e a cena em que ela canta “Moonshiner” da Cat Power na cama com ele tocando violão. Clássica.
Ainda bem que durou muito mais do que 30 segundos.


Junto com a mini-palestra do Malcom Gladwell do post abaixo, o Giuliano Cesar me passou uma outra, também sensacional, do 


